Cadeia da propina encarece produtos para saúde, diz especialista

Fonte: Folha de S. Paulo – 28/03/2017
 
Por Everton Lopes Batista
 
A descoberta de irregularidades na saúde, que teve um dos seus ápices com a denúncia, em 2015, da máfia das próteses, um sistema que estipulava comissões a médicos que usassem os produtos de determinadas empresas, ainda está apenas começando, segundo Pedro Ramos, diretor da Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde).
 
“Quando as denúncias chegam à mídia os caem, mas sem nenhuma ação efetiva, os valores acabam voltando ao que eram”, afirmou.
 
 
Ramos fez as declarações na manhã desta segunda (27) em um debate durante o 4º Fórum do Brasil: Transparência e Prevenção, promovido pela Folha e patrocinado por FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar), Amil e Abimed (Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para Saúde).
 
Para ele, a solução para a corrupção no setor pode estar em acordos feitos diretamente com a indústria, que barram empresas que praticam irregulares e dão margem à corrupção.
 
A processa, nos Estados Unidos, 11 companhias estrangeiras fornecedoras de produtos para a e com uma delas, segundo Ramos, um acordo que reduz o preço do produto pela metade já foi fechado na última semana.
 
 
“Esse custo não era logística ou outra coisa, era corrupção”, afirmou ele, que também é autor do livro “A Máfia das Próteses – Uma Ameaça à Saúde” (Ed. Évora).
 
 
“O que encarece o produto é a cadeia da propina. Maus médicos formam uma máfia e nos roubam.”
 
 
Para Solange Mendes, presidente da FenaSaúde, o dever de casa mais urgente da suplementar, que inclui operadoras de planos e seguros de saúde privados, é cortar os custos.
 
Segundo ela, as operadoras precisam zelar pelo dinheiro do cliente. “Não podemos pagar essa conta cegamente”, disse durante o debate. “As operadoras devem concentrar todos os esforços na redução de custos.”
 
Sobre a corrupção na saúde, Mendes lembrou a importância da transparência nos registros de materiais utilizados e procedimentos realizados. “A maior responsabilidade é a do médico. Ele é o profissional que dá início a todo esse processo”, afirmou.
 
“As universidades devem se empenhar na formação desse profissional do ponto de vista humanista e comportamental”, completou.
 
Gláucio Pegurin Libório, presidente do Conselho de Administração do Instituto Ética Saúde, disse que problemas de corrupção no setor envolvem não só médicos e distribuidores de produtos, mas também os hospitais e os planos de saúde.
 
“A transparência deve estar em toda a cadeia de fornecimento desses produtos”, afirmou. “Precisamos colocar todos juntos para discutir o problema”.
 
Mendes, da FenaSaúde, disse que iniciativas voltadas para a promoção da ética na são bem-vindas, mas, acrescentou, “precisamos de ações mais imediatas”.
 
O evento aconteceu nesta segunda (27) e terça (28) no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo.

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