Planos de saúde privados, o momento é delicado

Fonte: O Estado de S. Paulo – 29/07/2016
A crise está ameaçando diretamente o segurado e os planos de privados
Antonio Penteado Mendonça é advogado, jornalista, cronista, secretário geral da Academia Paulista de Letras, articulista do Estadão e comentarista da Rádio Estadão
A crise brasileira é extremamente perversa. Destruiu a confiança no país, gerou um desemprego brutal e ameaça milhares de empresas e centenas de milhares de pessoas com um quadro ainda mais duro nos próximos meses.

Entre os mais afetados estão os planos de privados. Os segurados estão perdendo o benefício e os planos pagando mais e recebendo menos. Abaixo segue artigo publicado na minha coluna do Estadão tratando do tema.

SITUAÇÃO DELICADA
A crise brasileira já fez quase 12 milhões de trabalhadores perderem seus empregos formais. O dado é apavorante. O impacto na vida das pessoas vai muito além dos números frios. Estes 12 milhões de trabalhadores, em verdade, são, no mínimo, 36 milhões de pessoas, levando em conta 3 pessoas por família, o que é uma conta conservadora.

O padrão de vida passa a ser outro. A busca pela recolocação se transforma numa Odisseia, com enormes chances de dar errado e cobrar um preço extra do trabalhador desempregado, que não consegue um novo emprego, apesar de sair de casa cedo e voltar apenas de noite, batendo de porta em porta, sem sucesso.

O insucesso afeta o psicológico da família. Desmotivação, depressão, quadros mais ou menos sérios agravam ainda mais a sensação de perda. É uma situação limite que piora à medida em que, em função da falta do salário, opções de cortes de despesas precisam ser feitas. Clube, academia, lazer, roupas, seguros, tudo, menos, na medida do possível, o plano de privado e a escola particular, entra no rol do dispensável pela falta de recursos mínimos para a manutenção da família.

Desemprego é isso, não é um número frio colocado numa planilha. Os 12 milhões de desempregados têm cara, nome, família, compromissos, sonhos, amigos, enfim, um padrão de vida conquistado a duras penas, fruto de muito trabalho, sacrifícios, superação e vontade de vencer.

De repente, do dia para a noite, em consequência da incompetência dos governantes, dos desmandos de todas as ordens, da corrupção, do nepotismo, a vida vira de ponta cabeça e todos os planos para o futuro passam a ser o retrato do fracasso. A esperança se transforma em pesadelo e o mundo real agrava o quadro, com a pressão dos compromissos diários, que são parte da rotina e estão dimensionados para um padrão de vida pago com o trabalho de cada um.

Um a um os projetos vão sendo adiados, os gastos cortados, o dinheiro contado centavo a centavo, os preços pesquisados, os produtos de sempre trocados por outros mais baratos. Os programas de fim de semana mudam do cinema para a televisão, do rodízio ou da cantina para a pizza e para a comida feita em casa. É a falta de dinheiro apertando o cinto.

Mas há mais e mais dramático. O medo de perder o emprego aumenta a angústia de perder o plano de privado, o seguro de vida, o seguro de automóvel mais barato, contratado através do RH da empresa.

Novas decisões são tomadas. Corretamente tomadas. É hora de antecipar o uso do plano de privado enquanto se está nele. Consultas e tratamentos sem urgência são antecipados. Toda a família vai ao médico, faz exames, se interna para procedimentos que poderiam ser feitos mais à frente, ao longo do ano, no momento certo para cada um deles.

O resultado é a antecipação de despesas que devem ser custeadas pelas operadoras dos planos de privados, sem que elas tenham a contrapartida do aumento das receitas. Ao contrário, em pouco tempo, em função do desemprego, elas terão uma queda em seu faturamento, consequência de 70% dos privados brasileiros serem custeados pelas empresas que, espremidas pela crise, dispensam seus funcionários como última forma de conterem os custos.

Mas os problemas das operadoras não terminam aí. Os e os planos coletivos por adesão também são afetados pela crise. Na medida do possível, seus titulares os manterão, mas não é raro acontecer uma mudança de status, para um patamar mais baixo e, portanto, mais barato, que também impacta o caixa do plano de privado, sem que, do outro lado, aconteça uma redução proporcional das despesas.

O resultado dessa conta é ruim e pode colocar em cheque o atendimento futuro de pessoas que imaginam que estão a salvo da crise, sem se lembrar que a operadora do seu plano de está atravessando um momento delicado. Não bastasse tudo isso, elas ainda arcam com o aumento de custos decorrente da desvalorização do Real e nem sempre integralmente transferível para os segurados.

Entre secos e molhados, hoje, estamos todos perdendo.

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