Falso médico recebia por remoção de pacientes

Fonte: Portal G1 – 23/11/2016
Graziane Soares Pereira acompanhou em estado grave sem registro e confessou usar carimbo de dois médicos. Ele disse à polícia estar arrependido. Polícia investiga morte de mulher após ser transferida de no ABC Paulista
O falso médico Graziane Soares Pereira, 33 anos, disse, em depoimento à polícia, que recebia ate R$ 250 por remoção de pacientes na ambulância em que trabalhava. Ele também confessou que usava o nome de dois médicos, que escolheu fazendo pesquisa no site do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), e mandou fazer carimbos para sua falsa identificação.

Foi após ser transportada em sua ambulância que Vanessa Batista Fortunato, 29 anos, morreu. Ela foi transferida do Santa Helena, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, onde passou por cirurgia para retirada do útero e teve complicações pós cirúrgicas, para outro hospital da mesma rede, em Santo André. Ela tinha acabado de dar à luz gêmeos. Os recém-nascidos passam bem. O corpo dela foi sepultado nesta segunda-feira, no Cemitério São José, em Ribeirão Pires (SP).

Ele foi preso em flagrante na madrugada deste domingo, em Santo André, no ABC Paulista, sob a acusação de exercício ilegal da profissão, falsa identidade e homicídio por dolo eventual, por ter assumido o risco de levar a paciente na ambulância sem ser médico. A defesa dele não vai se pronunciar durante as investigações da Polícia Civil.

Pereira afirmou à polícia que cursou medicina na Bolívia e que teria se formado em 2013, mas obtido o diploma apenas em 2015. “Meu diploma não é reconhecido no Brasil e eu não tenho registro junto ao CRM”, disse Pereira à polícia, na noite deste domingo (20), no 1º Distrito Policial de Santo André.

Ainda de acordo com o depoimento, Pereira disse que trabalhou na empresa Sergio Remoções nos anos de 2014 e 2015 e que voltou a prestar serviço na empresa há três meses. “Não sou registrado. Minha função na empresa é de médico socorrista. Trabalho como responsável na única ambulância UTI da empresa. (…) Quando fui contratado, os proprietários da empresa de remoção, Sérgio Donizete e a ‘Gil’, sabiam que eu tinha um diploma, mas não era efetivamente médico, com a situação regularizada. Mesmo assim fui contratado.”

Pereira disse à polícia que, durante o transporte da paciente detectou que Vanessa está expelindo uma espuma roseada, o que segundo ele seria indicativo de “edema pulmonar”. A aspiração, pela proximidade com o andreense, foi feita na emergência do local. Ele informou que o chamado de transferência da paciente era para uma vaga na emergência e não na UTI. E que pela dificuldade respiratória ela foi, então, levada para a UTI.

Ele informou que, ao concluir a terceira remoção daquela noite de sábado, foi abordado por policiais militares, que lhe pediram a identificação. “Eles perguntaram se eu era o Dr. Rafael e eu confirmei. Eu disse, a princípio, que estava sem documentos. Os policiais localizaram minha pasta na ambulância, onde eu havia indicado, com meus documentos, um esteto, meu jaleco, e os dois carimbos que utilizava.”

Ainda no depoimento, Pereira disse que foi interrogado pelos policiais militares e “…eu confirmei que não tinha registro de médico no Brasil, exercendo irregularmente a profissão. O fato de eu não ter registro de médico no Brasil em nada influenciou na evolução do quadro da paciente.”

Pereira concluiu o depoimento afirmando que prestou duas provas para validação de seu diploma no Brasil. “Na primeira, em 201, fui reprovado na primeira fase.Na segunda prova, em 2016, fui aprovado na primeira fase e estou aguardando a segunda fase, que compreende prova prática. Estou arrependido de ter exercido irregularmente a profissão de médico e de ter me atribuído falsa identidade.”

“Solicitei perícia para a ambulância a fim de constatar a funcionalidade dos equipamentos , será realizada nesta terça-feira [22], com isso acaba este inquérito policial. Sobre a morte já está sendo apurada em outro inquérito no 3º DP”, disse José Rosa Incerpi, delegado titular do 1º DP de Santo André.

Outro lado
O G1 ligou para o telefone que aparece na ambulância que removeu a paciente e a ligação caiu em uma residência. A reportagem esteve no endereço da empresa, em Santo André, mas ninguém atendeu a campainha.
Em nota, a assessoria do Santa Helena informou:

“Em relação ao caso da Sra. Vanessa Batista, o Santa Helena informa que a paciente foi internada na Maternidade Santa Helena, em São Bernardo do Campo, no dia 15/11, com um quadro de hipertensão gestacional. Na instituição, a paciente recebeu toda a assistência adequada ao seu quadro clínico e à saúde dos seus bebês. No dia 17/11, foi realizado o de um menino e uma menina em perfeitas condições de saúde. Entretanto, no dia 19/11, a Sra. Vanessa apresentou complicações decorrentes de hemorragia e foi submetida à histerectomia, conforme adequação às circunstâncias médicas da paciente.

Após nova avaliação clínica, verificou-se a necessidade de transferência da Sra. Vanessa para o Santa Helena, em Santo André, por possuir estrutura de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) com os recursos necessários ao seu caso. A paciente foi, então, levada à instituição, na qual chegou por volta das 21h20 com quadro clínico instável, vindo a falecer após cerca de 1h, por parada cardiorrespiratória.

A transferência entre as unidades foi realizada por um dos prestadores credenciados à de saúde para esse serviço. Entretanto, na chegada ao hospital, a médica responsável pela emergência do Santa Helena, ao receber a paciente, não recebeu a confirmação da identificação técnica do profissional que estava na ambulância como responsável médico. Depois de reiterados questionamentos, a unidade acionou a autoridade policial, que está investigando o caso. O Santa Helena Saúde ressalta que está dando todo o suporte necessário aos familiares da paciente e que está colaborando com as autoridades públicas para esclarecer a situação.”

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