Cientistas correm para entender a zika e barrar seu avanço

Fonte: Folha de S. Paulo – 21/05/2016
Por Pam Belluck
O neurologista Hongjun Song, da Universidade Johns Hopkins, tentava bolar um modo de testar o modelo tridimensional de um cérebro de seu laboratório, quando um de seus estudantes de pós-graduação sugeriu que examinassem o vírus da zika.

A conversa de Song com Xuyu Qian, de 23 anos, em janeiro, levou a um teste do vírus em seu modelo, uma pequena bola de células cerebrais cultivadas a partir de células-tronco que simula o desenvolvimento inicial do cérebro.

A experiência respondeu a uma questão central: como o vírus da causa danos cerebrais, incluindo a em bebês nascidos de mães infectadas?

A resposta poderia estimular descobertas para evitar tais problemas neurológicos.

Nessa área, o tempo é essencial. Um ano depois da primeira confirmação do vírus na América Latina, ainda não há tratamento nem vacina.

“Não podemos esperar. Levar nosso trabalho para o público normalmente demora anos. Mas esse é um caso em que podemos fazer a diferença imediatamente”, disse Song, no Instituto de Engenharia Celular da universidade, onde ele e sua e parceira de pesquisa, Guo-Li Ming, ofereceram um tour entre pipetas e placas de petri.

A descoberta inicial do laboratório, publicada em março com pesquisadores de duas outras universidades, mostrou que o vírus da atacou e matou as chamadas células neurais progenitoras, que se formam no início do desenvolvimento fetal e geram os neurônios do cérebro.

Em abril, a equipe publicou um estudo no periódico “Cell” mostrando que essa agressão da resultou em organoides cerebrais menores: células progenitoras danificadas criaram menos neurônios, levando a um volume cerebral menor. Isso pode explicar a de alguns dos bebês expostos ao vírus da zika.

“Acho que eles acertaram em cheio. A conclusão do estudo é totalmente consistente com a patologia que temos visto nas crianças que morreram ou nos fetos abortados”, disse Eric Rubin, professor de Imunologia e Doenças Infecciosas da Universidade Harvard.

Os experimentos sugerem outros aspectos preocupantes da :mesmo baixas doses do vírus por curtos períodos podem causar danos e, se ele é mais perigoso no primeiro trimestre da gravidez, também pode ser prejudicial no segundo.

“A notícia realmente triste é que o vírus pode não só infectar células progenitoras neurais, mas transformá-las em uma fábrica”, disse Song.

“As células produzem mais vírus e eles podem se espalhar”, disse Ming, acrescentando que as células infectadas parecem criar um “efeito espectador”, liberando substâncias químicas quando morrem que danificam ou matam as células progenitoras vizinhas não infectadas.

Os organoides resultantes contêm uma pista assustadora do motivo pelo qual a zika também está associada a distúrbios neurológicos em adultos, incluindo a síndrome de Guillain-Barré, uma paralisia temporária. Segundo Song, a infecção por zika é “pior” nas células da glia, que dão suporte e isolam os neurônios e estão presente por toda a vida, não só no desenvolvimento fetal.

No entanto, ainda há muito mais a ser descoberto, e a colaboração catalisada por um comentário de um jovem cientista agora inclui nove laboratórios em seis locais dos Estados Unidos.

No Centro Nacional de Avanço da Ciência Translacional, em Maryland, algumas estão sendo testadas em células progenitoras neurais, na esperança de encontrar compostos que possam brecar o vírus.

Ao testar rapidamente milhares de compostos, o laboratório se dedicou a um candidato promissor. Se a droga for bem-sucedida em novos testes, isso pode permitir que cientistas deixem de lado a maior parte dos testes de segurança necessários para a criação de novas ou vacinas.

Equipes no Brasil e na Universidade da Califórnia também descobriram que o vírus atacou células progenitoras neurais e encolheu organoides cerebrais. A equipe de San Diego relatou que a zika ativou uma molécula que normalmente protege contra vírus em geral, e essa atividade em excesso parece disparar genes que estimulam a destruição de células progenitoras.

No Rio de Janeiro, Stevens Rehen, neurocientista do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, disse que a equipe brasileira também estava testando drogas, buscando uma que bloqueasse o vírus da zika. No entanto, eles só podem testar aquelas aprovadas no Brasil; importar de outros países envolve semanas de burocracia.

Na Universidade de Pittsburgh, a microbiologista Carolyn Coyne e Yoel Sadovsky, obstetra e microbiologista, investigam como o vírus entra na placenta. “Atravessar a placenta não é a única maneira de infectar um feto”, disse Sadovsky.

Separadamente, cientistas de outras instituições estão examinando outras questões, como a maneira com que o sistema imunológico reconhece o vírus.

Song e Ming continuam pesquisando. Eles investigam qual trecho do material genético da zika é sua arma letal.
Uma droga que possa “salvar as células depois de infectadas” não é o que está sendo buscado, disse Song. “A melhor droga seria a que realmente impedisse a infecção das células em primeiro lugar.”

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