Vírus zika e microcefalia, a batalha que começa perdida.

Fonte: Valor Econômico – 05/02/2016
Por Monica Gugliano
Na semana em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declara a microcefalia em regiões com a presença do vírus como emergência internacional, o infectologista Esper Kallás, professor da USP e um dos maiores especialistas na área no Brasil, põe em evidência, em entrevista ao Valor, a impotência da medicina diante da epidemia.
A decisão da permite mobilizar verbas milionárias, no mundo inteiro, para acelerar pesquisas que possam esclarecer o motivo da explosão de casos da má¬formação de bebês no Brasil. Vários países, como os EUA, recomendam às gestantes e às que planejam engravidar que evitem regiões em situação de alerta. Embora o vírus possa atingir qualquer pessoa, essas mulheres e seus bebês podem ser as maiores vítimas da epidemia. Só no Brasil, já foram identificados mais de 3.000 casos. Nem todos, no entanto, podem ser relacionados diretamente com o vírus e estão sendo investigados.
Valor: Alguns especialistas confirmam a correlação entre o vírus e a microcefalia em bebês. Outros acham que ainda é preciso encontrar mais evidências.
Esper Kallás: Há essa relação, sim. Primeiro, é preciso dizer que a microcefalia, até agora, era relacionada a problemas infecciosos ou tóxicos, como sífilis, rubéola, toxoplasmose. Ou ao uso de álcool e, outra causa, à baixa de nutrientes na mãe. No entanto, sem nenhuma dessas causas, começaram a aparecer bebês com microcefalia e os médicos passaram a investigar. Surgiu, então, a primeira relação: todas essas grávidas, em algum momento da gestação, tiveram ezantemas [erupções na pele] e outros sintomas em comum. Um médico mandou uma amostra do líquido amniótico e a Fiocruz identificou o vírus.
Valor: Aí apareceu o caso de um nascido no Ceará?
Kallás: Esse foi o caso emblemático, o feto natimorto cujo tecido foi examinado no Instituto Evandro Chagas, em Belém. A partir dele, o número de identificações também aumentou. Tudo isso permitiu que a associação entre o vírus e a microcefalia fosse ficando maior.
Valor: Mas não é definitivo?
Kallás: Temos muitas indicações. Mas quem usa o rigor científico precisa de mais evidências. Por exemplo: por qual meio o vírus causa a má¬formação? Como entra na corrente sanguínea do feto? Como atravessa a placenta? Como causa esse dano no cérebro? Não temos respostas precisas para isso. Sem elas, é impossível fazer essa afirmação. Mas não podemos ignorar a correlação de fatos.
Valor: Até que não se tenham essas certezas, o que uma grávida pode fazer? O que os órgãos de estão fazendo por elas?
Kallás: Essa é a pior questão. Não podemos esperar. Elas não podem esperar. A relação entre o vírus e a microcefalia criou uma situação em que não temos o que fazer. Vamos interromper a gestação em todos os casos suspeitos? As leis brasileiras nem permitem isso. A microcefalia só é detectada a partir da 24ª semana de gravidez. É algo difícil. Temos que cortar caminhos e ter muita rapidez nas pesquisas.
Valor: Existe alguma recomendação que possa tranquilizar essas gestantes?
Kallás: Que elas acompanhem a gestação com o máximo cuidado. Que evitem os locais já identificados com surtos. Que usem todas as medidas de prevenção conhecidas. Oferecemos as informações disponíveis. Se é uma mulher jovem, pode esperar e não engravidar agora. Se é uma mulher de 41 anos, que faz fertilização e essa gravidez é uma das últimas chances de ela ter um filho? Não temos um remédio. É uma das situações mais terríveis da medicina, em que não há o que fazer.
Valor: Como dizer isso a uma mulher gestante?
Kallás: Poucos sentimentos são tão fortes quanto o instinto maternal. Sempre tive a opinião e, defendi, que sobre gestação, aborto, não cabe a nós, homens, tomarmos uma decisão. É a mulher quem decide. Só que, neste caso, quando tem as informações suficientes para resolver o que fazer, o feto já tem 24 semanas. Não temos, ainda, como saber antes se essa mulher foi exposta. É a pior situação do mundo.
Valor: Quando o senhor diz que cabe à mulher decidir o que fazer ao engravidar, refere¬se ao projeto do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que limita, ainda mais, as possibilidades previstas na lei brasileira que permitem o aborto?
Kallás: Entre outros, refiro¬me, sim.
Valor: O senhor está entre os que responsabilizam o governo pela epidemia?
Kallás: Diria que não se pode fazer essa relação tão direta. Não vamos conseguir combater a epidemia do vírus zika tirando água de vasinho e espirrando fumacê para cima e para baixo. Gosto de dar um exemplo: na década de 80, em Cuba, Fidel Castro baixou medidas de controle estritas para combater o Aedes aegypti. Cuba é uma ilha. Imaginou¬se que seria tangível acabar com o mosquito. Não conseguiram, a resiliência dele é muito maior do que as medidas que conseguimos tomar.
Valor: Até hoje é assim…
Kallás: O mosquito ficou mais resistente. Antes picava em alguns horários. Hoje, não mais. Podemos dizer que até o aquecimento global interfere na propagação dos mosquitos. O vírus zika não tira visto nem compra passagem. Entrou na América do Sul em 2014 e há casos em todo o continente, com algumas exceções. A rapidez de propagação e de transmissão é extraordinária. Os sintomas podem passar sem serem notados.
Valor: O senhor acha que as autoridades de agem aquém do necessário?
Kallás: Acho que os médicos brasileiros tiveram mérito ao serem os primeiros a identificar essa possível relação entre o vírus zika e a microcefalia. Antes de chegar aqui, o vírus passara pela Ásia e pela Polinésia. Foram nossos sistemas de que perceberam essa ligação com a microcefalia. Epidemias e novas infecções são naturais na história. Cabe à ciência lidar com elas, identificar e diminuir os danos. Por isso, sempre defendo que um país deve investir, acima de tudo, na pesquisa, na vigilância epidemiológica. Muitos não dão valor a isso.

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