‘Telemedicina veio para ficar’, diz fundador da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica

Romeu Domingues, presidente do Conselho de Administração da Dasa, alerta que atendimento a distância evita idas desnecessárias às unidades de saúde

No mundo pós-pandemia do novo coronavírus, o cuidado com a própria saúde deve ser intensificado e as tecnologias devem ajudar pacientes com doenças crônicas a manter o quadro controlado. Estas são algumas das análises de Romeu Domingues, presidente do Conselho de Administração da Dasa – empresa de medicina diagnóstica -, que também foi fundador e vice-presidente da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed). Ainda na visão de Domingues, a telemedicina, que foi liberada no País enquanto houver a circulação do vírus, deve ser incorporada aos padrões de atendimento, evitando idas desnecessárias às unidades de saúde e formalizando o contato médico-paciente que já ocorre por meio de aplicativos de comunicação. “A telemedicina veio para ficar. O mundo inteiro já usava. Para coisas corriqueiras, como uma cefaleia, diarreia, por que tem de ir para o pronto-socorro?”.

Desde fevereiro, a companhia já realizou mais de 500 mil testes para diagnosticar o novo coronavírus e está lançando dois novos exames para detectar a doença, totalizando seis diferentes testes para a covid-19. Com o lançamento, a empresa terá capacidade de processamento de 120 mil exames por dia. Leia os principais trechos da entrevista.

Os laboratórios começaram a trabalhar antes da chegada do novo coronavírus no Brasil. Como foi esse processo na empresa?

Desde o início, a gente tinha a preocupação de fazer o diagnóstico na fase aguda, tanto que fomos o primeiro laboratório privado a fazer o RT-PCR (teste considerado padrão-ouro no diagnóstico da doença). Passamos pelas dificuldades que foram enfrentadas em todo o mundo, como a escassez de aparelhos e de reagentes. É frustrante querer fazer 5 mil exames por dia e fazer 1,5 mil, mas todos nós estávamos tentando fazer em escala, porque diagnóstico é fundamental, ainda mais em uma situação de curva ascendente. As pessoas começaram a se infectar e, hoje, a gente está mais estruturado e, desde fevereiro, fizemos quase 500 mil exames entre o PCR e o teste sorológico.

O que mudou na companhia com a disseminação de casos pelo País?

A gente, hoje, tem de se adaptar às condições. Fizemos muitos treinamentos e damos prioridade à higienização. Os profissionais usam EPIs (equipamentos de proteção individual) e, enquanto não tiver vacina, não vai poder ter 100 pessoas em um ambiente para fazer um exame de sangue. Também estamos fazendo mais exames domiciliares, inclusive de imagem.

Como vai ficar o mundo pós-pandemia?

Era inimaginável o mundo parar por causa de uma infecção viral e ver a maior potência em biotecnologia, que é os Estados Unidos, ficar de joelhos. Vimos que é preciso dar maior ênfase à saúde. Toda semana, aprendemos alguma coisa. Vimos que o vírus é mais cruel com pessoas de mais idade e com a saúde mais comprometida. A pandemia mostrou que a população precisa ter mais saúde. Vivemos uma epidemia de diabete e de outras comorbidades e é preciso ter uma conscientização da população em relação a isso, porque outros vírus vão continuar aparecendo. Por outro lado, a gente vê que a sustentabilidade da saúde, no mundo inteiro, é preocupação. É necessário diminuir o desperdício, evitar exames, consultas e cirurgias desnecessários, e voltar para a atenção primária, para o médico de família.

O senhor acredita que as pessoas vão cuidar mais da própria saúde depois dessa situação?

É preciso ter mais consciência. Além disso, o ideal é que a pessoa faça um exame e o resultado saia direto para o celular. Tem de ir um alerta para o médico também. Se repete o exame e dá normal, não tem de ficar repetindo. Mas, quando tiver qualquer complicação, tem de ter alerta. Agora, com a pandemia, a gente vai ver mais disposição para usar os dados, porque tem muita gente que está doente e não está sendo acompanhada.

Quais avanços a situação acabou trazendo?

A telemedicina veio para ficar. O mundo inteiro já usava. Para coisas corriqueiras, como uma cefaleia, diarreia, por que tem de ir para o pronto-socorro? Não precisa ir para a emergência para essas condições clínicas. Antes da pandemia, 60% dos médicos não eram a favor da telemedicina, mas 85% usavam o WhatsApp. Com uma plataforma, tem um prontuário estruturado, pode mandar imagens, exames, prescrever e, depois, falar que tem de passar no escritório. Não vejo como voltar o que era antes de forma alguma. Tivemos avanços na área diagnóstica, como fazer os exames em larga escala, mais baratos e mais rápidos. Mais de 120 empresas estão tentando lançar uma vacina. E estamos vendo avanços nos setores privado e público.

Fonte: O Estado de S. Paulo – 16/06/2020
Por Paula Felix

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