Tecnologia e prontuário eletrônico por uma saúde mais plural

Integração de dados permite agilidade, menos gastos e mais investimento em pesquisa

A coordenação do cuidado —como experiência completa, integrada— deve ser expandida, unindo as iniciativas privada e pública, para evitar desperdícios e garantir tratamento de saúde adequado a todos os pacientes. A tecnologia tem se mostrado uma aliada importante nessa direção. Com a pandemia, demos passos cruciais na telessaúde; mesmo assim, em regime de urgência, ainda atrás do resto do mundo. Trocar informações entre os profissionais da área médica é primordial para melhorar o funcionamento do sistema. Por isso, precisamos avançar na implantação do prontuário eletrônico, antes que outra crise global venha nos forçar em direção a esse avanço. Temos que promover a efetiva transformação digital na saúde brasileira.

projeto de lei 3.814/2020, que trata da criação de uma plataforma integrada pelo SUS com os dados dos pacientes das redes pública e particular, foi aprovado no Senado recentemente. E, no início deste mês de setembro, o Ministério da Saúde lançou a versão profissional do sistema Conecte SUS, que irá abarcar o prontuário eletrônico. O órgão também informou que o programa está apto a ser acessado por cerca de 15 mil Unidades Básicas de Saúde, mas ainda falta operacionalizar as 29 mil UBSs restantes para englobar todo o Brasil.

Hoje, o atendimento de um beneficiário da saúde suplementar pelo SUS demora até dois anos para ser notificado à operadora. O atraso causa a perda de dados relevantes do paciente, seu diagnóstico clínico e acompanhamento, o que não aconteceria caso os sistemas fossem integrados. Com o prontuário eletrônico, será possível criar protocolos e compartilhar as experiências para que erros e acertos sejam visualizados por outras áreas, gestores e operadoras.

A nova tecnologia vai permitir que médicos de todo o país tenham acesso ao histórico clínico com dados registrados nas redes pública e privada, nos diversos níveis de atenção à saúde. Então, uma pessoa que começou o seu atendimento médico em Alagoas, por exemplo, ao seguir para São Paulo terá todas as informações de seu prontuário eletrônico, bem como os medicamentos que usa. Em um país de dimensões continentais, a capilaridade dos dados é essencial com a evolução tecnológica.

A transformação digital deve abranger todo o sistema, contribuindo para a integração público-privada, que, no momento, está limitada à alocação de leitos e procedimentos. Cerca de 40% das internações do SUS são realizadas pelos hospitais filantrópicos, e mais de 70% das cirurgias de alta complexidade do Sistema Único de Saúde acontecem nos hospitais privados, segundo a Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados).

O SUS tem agora a missão de fornecer infraestrutura para que a rede integrada de cuidados contínuos torne-se uma realidade. Provavelmente, a nuvem de compartilhamento dos dados do prontuário eletrônico ficará sob sua guarda, enquanto os softwares usados pelas unidades públicas e rede privada possam variar, precisando somente ser interligados.

Uma das metas do SUS é conectar à internet pelo menos 90% das unidades básicas de saúde do país até o fim deste ano. E está no âmbito do projeto que estabelece as bases para a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), como parte da Estratégia de Saúde Digital 2020-2028. O setor privado participará com o compartilhamento das informações, conectando-se à RNDS. Ao Ministério da Saúde caberá a regulação e, provavelmente, a adequação à Lei Geral de Proteção de Dados, com as restrições de acesso. Ainda há que se pensar na segurança da informação médica dos cidadãos.

É preciso começar a solucionar os problemas mais básicos, como a falta de conexão de internet de qualidade no interior e até em cidades grandes. Atualmente, 142 milhões de brasileiros já estão cadastrados com um único CPF e têm seus dados imputados no sistema. Na imunização contra a Covid-19, quem tem comorbidade não precisou pegar atestado médico para comprovar, porque o sistema já a reconheceu.

Com a comprovação eletrônica para a vacinação foi possível eliminar outra dificuldade: a leitura da grafia à mão dos médicos, muitas vezes incompreensível. O mesmo seria resolvido no prontuário eletrônico, evitando a administração inadequada de medicamentos. Além da eliminação do uso do papel, favorecendo a sustentabilidade.

A partir desse gerenciamento de recursos, com a integração dos dados —ou seja, menos gastos com exames, papel e deslocamentos— seria possível aumentar investimentos em pesquisa e desenvolvimento, para que o tempo também seja realocado em inovação.

A universalização da experiência digital na saúde deve seguir a tendência global, acelerada pela pandemia de Covid-19. Os órgãos reguladores em todo o mundo têm pressionado as provedoras de saúde para abrir seus sistemas de armazenagem, uma precondição para a integração de dados. A União Europeia já está promovendo um padrão eletrônico para prontuários médicos. Em agosto de 2020, o governo indiano anunciou um plano para a identidade de saúde digital tendo na sua base a integração de dados. A Apple, com sua reputação de empresa que protege a privacidade dos usuários, também defende um padrão comum.

Para entender o efeito do processo de digitalização no Brasil, a McKinsey realizou um estudo com 124 empresas de grande e médio portes em diversos setores para mensurar a maturidade digital das companhias que atuam no país. No grupo de “setores diversos”, que inclui educação, saúde e serviços, as líderes se destacam pela forma como utilizam dados e modelos para a personalização dos serviços. Por exemplo, uma empresa de educação utiliza plataforma personalizável de ensino a distância. No entanto, o setor apresenta grande dificuldade para adotar modelos mais sofisticados de análises estatísticas, bem como para atrair talentos com habilidades digitais.

A defesa desses esforços tecnológicos preconiza uma nova era da medicina universal, que nos leva a outro patamar a partir da telemedicina e do prontuário eletrônico. Um panorama mais avançado em comunicação e cruzamento de infinitos dados que aumentam a precisão na definição dos tratamentos médicos e a detecção de possíveis fraudes. É um passo importante para a consolidação de uma saúde mais plural, inclusiva e sem fronteiras. Como deve ser.

Fonte: Folha de S. Paulo – 08/09/2021

Por Renato Casarotti*

*Presidente da Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde).

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