Longevidade traz inovação a serviços

Aumento da população acima dos 60 anos, que representa 20% do consumo do País, cria oportunidades de negócios em todas as áreas

Investir em um e-commerce especializado em produtos para o público acima de 70 anos. Criar um aplicativo de transporte exclusivo para a terceira idade. Desenvolver uma plataforma online com ferramentas para cuidadores ou ainda para a recolocação de profissionais seniores no mercado de trabalho. Essas são possibilidades de negócios que convergem para a realidade brasileira: um país em processo acelerado de envelhecimento.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD – Contínua) do IBGE divulgada em abril deste ano, o Brasil ganhou 4,8 milhões de idosos desde 2012, o que retrata crescimento de 18% em cinco anos. Atualmente, a população acima de 60 anos representa mais de 30 milhões de pessoas.

Os dados acima mostram que a longevidade representa um campo fértil para o empreendedorismo. “Estamos falando de um mercado de aproximadamente R$ 1 trilhão de renda, responsável por 20% do consumo no País”, diz a fundadora da Hype60 , consultoria de marketing com foco no mercado sênior, Bete Marin.

Cenário. Para o professor do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV (FGVCenn), Marcus Salusse, “esta é uma tendência sociodemográfica mundial. Por isso, conseguimos prever demanda.” Segundo ele, as áreas mais promissoras para novos negócios são saúde e bem-estar, gestão financeira e mobilidade e movimento.

Com o objetivo de mapear os hábitos de consumo e entender quais são as principais necessidade dos maduros, a Hype60 conduziu um estudo em parceria com a plataforma de pesquisa Mind Miners no início do ano. Dos 863 participantes, 57% acredita que faltam produtos e serviços voltados para a sua idade. Entre as principais demandas citadas estão segmentos de cursos em geral, vestuário, serviços voltados à mobilidade e ao turismo e a soluções para acessibilidade.

“Hoje essa população é muito mais ativa e engajada. A barreira tecnológica não existe mais para a maioria. Era muito comum dizer que o idoso tinha tempo e dinheiro, mas não tinha saúde. Isso mudou. Há um potencial de compra e consumo enorme”, pontua Salusse.

Na prática. Formado em tecnologia da informação, Fabio Ota fundou em 2014 a escola de programação de jogos ISGame. Inicialmente voltada para crianças e adolescentes, Ota percebeu que o método criado poderia ser efetivo na prevenção do Alzheimer e outras doenças cognitivas. “Mas precisava ter respaldo técnico-científico. Então formei uma equipe de psicóloga, fisioterapeuta, profissionais de terapia ocupacional e neuropsicólogos para entender se funcionava na prática”, conta. A equipe o ajudou a formatar o piloto do curso de programação de games para adultos acima de 60 anos.

Em 2016, após uma série de avaliações, a ISGame foi aprovada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) no programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE). Segundo a instituição, houve “melhora acentuada de memória e qualidade de vida” dos participantes. Após aporte da Fapesp, passaram pela ISGame mais de 120 alunos. O curso tem duração de cinco meses, com uma hora e meia de aula semanal.

“Como muitos interessados ainda questionam se conseguirão programar os games, encontrei um patrocinador e atualmente as aulas são gratuitas. Mas estou colocando em prática um modelo de licenciamento da metodologia, em que o licenciado poderá ter uma sede da escola ou ainda levar o curso de programação para centros de convivência, por exemplo”, conta Ota.

Aceleração. Apesar de a longevidade no Brasil crescer em ritmo intenso, os negócios especializados para os maduros surgem a passos lentos. Para fomentar o mercado da longevidade chegou ao Brasil em 2017 a Aging 2.0, organização do Vale do Silício (EUA), que tem como principal financiador o Google. “Nosso propósito é atender o segmento com o viés da tecnologia para obter escalabilidade dos negócios”, conta o embaixador da Aging 2.0 no Brasil, Sérgio Duque Estrada.

Vida longa não é necessariamente vida saudável

Se o brasileiro está atingindo maior longevidade, isso não quer dizer obrigatoriamente que a qualidade da saúde dos mais idosos está crescendo no mesmo ritmo. O médico geriatra do Hospital Sírio Libanês, Wilson Jacob Filho, destaca que os idosos estão saudáveis sob o ponto de vista funcional, mas esta população, justamente pela maior longevidade, será cada vez mais portadora de doenças crônicas. “O fato de termos boa capacidade funcional não quer dizer que temos menos doenças. O que temos são doenças tratadas de forma mais adequada e essa evolução da medicina faz com que os indivíduos vivam bem. Essa é a condição do envelhecimento atual, separado em camadas socioeconômicas com maior ou menor acessibilidade ao sistema de saúde”, pontua. O especialista destaca que a maior longevidade da população do país é explicada, em parte, pela redução da taxa de natalidade brasileira. Para Jacob Filho, o ideal é proporcionar inovações de produtos e serviços que possam beneficiar a todos, sem distinção de poder aquisitivo, no médio e longo prazos.”

Segmentos em alta

Corpo

Há diferentes níveis de envelhecimento e, nesta ótica, diferentes necessidades de cuidado com o corpo. Desde produtos de beleza específicos até atividades físicas.

Mente

As doenças cognitivas são uma realidade para as pessoas acima dos 60 anos. Jogos e cursos diversos, como idiomas e música, ainda são incipientes.

Lazer

A imagem do idoso que nunca sai de casa está no passado. Espaços voltados para esse público, com o intuito de integração e lazer, são nichos no segmento.

Mobilidade

Há diferentes possibilidades dentro da categoria. Deslocamento urbano, viagens e intercâmbio estão entre elas. Os maduros querem conhecer o mundo.

Tecnologia

Inseridos na era digital, as possibilidades de aplicativos que saciem as necessidades do segmento sênior representam um mercado pouco explorado.

Finanças

A gestão do cuidado também passa pela parte financeira. Desde aplicativos a dicas de profissionais da área, este é um setor promissor para empreender.

Fonte: O Estado de S. Paulo – 30/05/2018

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