Legado da pandemia

Urgem recursos para custeio, investimentos em pesquisa, melhorias da capacidade de atendimento

Falar em legado da pandemia parece brincadeira de mau gosto. A crise sanitária deixa um lastro trágico à medida que o tempo passa. O número de mortos bate em 100 mil, o desemprego atinge 12,8 milhões de trabalhadores, a quebra de empresas supera 780 mil, a desigualdade e a pobreza aumentam, o ano escolar sofre irremediável atraso.

Cenário tão devastador e inesperado impôs medidas emergenciais necessárias para salvar vidas. Unidades da Federação precisaram aumentar às pressas o número de UTIs, tradicionalmente escasso em hospitais do Sistema Único de Saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda de 10 a 30 leitos para cada 100 mil habitantes.

O Brasil não está mal na foto. Levantamento da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) aponta 20 camas, índice superior ao da maior parte das nações europeias. A vanguarda não se deve a esforço para sintonizar o país com as boas práticas ditadas pelo protocolo. Deve-se à violência urbana e aos acidentes de trânsito.

Se os números absolutos são confortáveis, os relativos preocupam em razão da desigualdade que marca o setor: o privado concentra 49 leitos contra 14 do SUS. A pandemia escancarou a escassez e levou à corrida por instalações urgentes. A mobilização de governadores e prefeitos evitou a perda de vidas. Passada a calamidade sanitária, é essencial manter as UTIs ativas para fazer frente ao crescente desafio da saúde.

A perda de poder aquisitivo da população provocou evasão de clientes dos planos de saúde. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), as operadoras perderam 5,4% dos usuários entre 2014 e 2018. A quantidade de planos ativos caiu de 49,9 milhões para 47,2 milhões. Em 2019, houve perda de 60,4 mil usuários.

Com o aprofundamento da crise econômica decorrente da pandemia, a tendência agrava-se. Em maio, de acordo com a ANS, o número de beneficiários despencou para 46,829 milhões de pessoas, contra 47,113 milhões no final de março — perda de 283 mil clientes em dois meses.

Os brasileiros forçados a renunciar ao serviço privado batem e baterão à porta do SUS. É necessário que o sistema, criado há 32 anos, avance um passo importante. Além de universal e gratuito, precisa ser de excelência. A qualidade custa caro. Urgem recursos para custeio, investimentos em pesquisa, melhorias da capacidade de atendimento. Impõe-se, também, gestão profissional e fiscalização do dinheiro público.

Fonte: Correio Braziliense – 09/08/2020

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