Inflação da educação é o triplo do índice geral de preços; saúde é o dobro

Fonte: O Estado de S.Paulo – 19/09/2017
 
Economia real. Embora o IPCA acumulado em 12 meses tenha ficado em 2,5%, serviços de saúde e educação subiram 5,2% e 7,5% no mesmo período; segundo economistas, consumidor não abre mão de qualidade, o que faz os preços serem mais resistentes
 
Por Márcia De Chiara
 
O brasileiro tem acompanhado mês a mês, no último ano, a queda da inflação. O preço dos alimentos já sobe menos, o estacionamento não aumenta como antes, mas dois itens insistem em não dar trégua: os serviços de educação e saúde continuam sendo reajustados acima do índice geral de preços. Entre as explicações para essa resistência está no fato de que o consumidor, nesses casos, não abre mão da qualidade e da confiança dos serviços privados. Os preços, desse jeito, não cedem.
 
Em agosto, a inflação oficial acumulada em 12 meses, de acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), ficou em 2,5%. Foi a menor marca em mais de 18 anos. Enquanto isso, os gastos com serviços de educação subiram o triplo (7,5%). No mesmo período, os de saúde subiram o dobro (5,2%).
 
Os cálculos da LCA Consultores não consideram os planos de saúde, cujos preços são monitorados pelo governo. Neste ano, a Agência Nacional de Saúde (ANS) autorizou um aumento máximo de 13,55% para os planos, praticamente o mesmo reajuste do ano passado.
 
A fisioterapeuta Cleci Rojanski conhece esses porcentuais na ponta do lápis. Dona de um estúdio de pilates, ela é uma prestadora de serviços que não consegue aumentar as mensalidades desde o ano passado. “Perdi clientela do ano passado para cá. Se eu tivesse reajustado, seria bem pior”, diz.
 
Na outra ponta, no entanto, os preços subiram. O plano de saúde da família teve alta de quase 15%. A mensalidade da escola do filho de 12 anos foi reajustada em 10%, para R$ 1.315. “Pensamos em mudar para um plano de saúde mais barato, mas temos toda uma preocupação com isso”, diz. Ficar sem plano está fora de cogitação. Para equilibrar o orçamento da família, Cleci reduziu viagens e jantares em restaurantes. “No dia a dia, a gente não percebe a queda da inflação.”
 
Quando se trata de educação e saúde os preços têm subido, sistematicamente, acima da inflação geral ao longo dos anos. Na última década, enquanto o IPCA acumulado subiu 80,5%, os preços dos serviços de saúde cresceram 113,8% e os de educação, 110,7%.
 
O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, diz que as relações de confiança construídas ao longo do tempo entre clientes e prestadores de serviços de saúde, como médicos e dentistas, acabam dificultando a troca por opções mais baratas. “A relação de confiança acaba fazendo com que possíveis abusos possam acontecer.”
 
O economista da LCA Consultores, Fabio Romão, diz que existe alguma resistência nos preços dos serviços de educação e saúde, mas pondera que a trajetória é de desaceleração. “Resistência existe, mas não é absoluta.” Segundo ele, no caso da educação, as famílias pensam duas vezes antes de mudar as crianças de escola. “Há todo um ciclo social que a criança desenvolveu na escola, a proximidade de casa.” Esses fatores, segundo ele, chancelam os reajustes e dão resistência à queda de preços.
 
O presidente do sindicato das escolas particulares de São Paulo, Benjamim Ribeiro, é mais direto: “nosso concorrente, a escola pública, é muito ruim, por isso as famílias preferem manter os filhos na escola particular”.
 
‘Tentei preservar aquilo que é primordial’
 
A analista de exportação Valéria Brauer suspendeu as aulas de natação do filho, cortou a terapia e renegociou o seguro do carro. Ela decidiu fazer essa ginástica financeira para conseguir manter o plano de saúde e o filho na escola particular. “Tentei preservar aquilo que é primordial: saúde e educação.”
 
O convênio médico da analista foi reajustado em 25,8% em julho e o plano do filho subiu 13% neste ano. A mensalidade escolar teve alta de 10%. Ela acredita que a escola terá um reajuste de mais 10% no ano que vem. “Consegui renegociar o seguro do carro, mas não consegui baixar a mensalidade do plano de saúde nem a do colégio”, observa.
 
Valéria conta que já falou várias vezes para o filho de 9 anos, que cursa o quarto ano do ensino fundamental, que queria mudá-lo de escola. “Mas ele diz que gosta dos amigos e eu confio na educação”, explica a analista.
 
Além da dificuldade de trocar de escola por causa da relação de confiança que existe entre ela e os educadores e do relacionamento do filho com os colegas de classe, Valéria ressalta também que não tem alternativas entre os colégios particulares perto da sua casa porque eles cobram um valor de mensalidade maior do que o que ela paga atualmente. “Não tenho para onde fugir”, diz.
 
No passado, a analista chegou a colocar o filho na escola pública, mas na época ele era pequeno, frequentava a pré-escola. Agora, diz ela, não tem condições porque a qualidade do ensino é pior e o filho será prejudicado. No caso do plano de saúde, Valéria tentou fazer uma troca, mas desistiu por causa da queda na qualidade. “Isso não é luxo, é saúde”, argumenta.
 
ENTREVISTA
 
Fábio Romão,
 
Economista da LCA Consultores
 
Por que a inflação de serviços demora mais para cair se comparada com o índice geral de inflação?
 
Inflação de serviços é um balaio, tem muitas coisas lá. Tem alguns itens que estão desacelerando, mas em outro ritmo. É o caso de saúde e educação. Dificilmente esses dois serviços, já excluindo os preços dos planos de saúde – que são monitorados pelo governo – recuarão para um patamar de 5% esperado para os serviços como um todo neste ano. O que explica essa resistência é o vínculo com a escola e com o médico que não dá para substituir.
 
A expectativa de alta de 5% para inflação de serviços em geral em 2017 não é muito elevada, diante de uma inflação geral esperada em torno de 3%?
 
A alta de 5% para inflação de serviços em 2017 é modesta se compararmos com o histórico. Em 2011, a inflação de serviços como um todo chegou a 9,7%. A despeito do PIB (Produto Interno Bruto) ter caído em 2015, a inflação de serviços aumentou 8,2%, ante 8,4% em 2014. Foi uma diferença muito pequena. Os serviços resistiram porque houve aumento de custos, como energia, água e as matérias-primas, como os alimentos. Isso acabou atrapalhando o arrefecimento.
 
E a recessão não afeta a inflação de serviços?
 
De 2015 para 2016, com a economia em recessão, a inflação de serviços perdeu 1,7 ponto porcentual e neste ano vai perder mais 1,5 ponto. Isso ocorreu por causa da desaceleração da economia e porque o indexador, dos reajustes, como IGP-M, perdeu força..

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