Hospitais sabiam lucrar – até o vírus surgir

Com procedimentos cancelados e milhões de desempregados, unidades têm prejuízo.

Quando suspendeu todos os tratamentos médicos não emergenciais no fim de março, a conceituada Clínica Mayo começou a perder milhões de dólares por dia. O estabelecimento, com sede em Minnesota, sempre teve como clientes presidentes americanos e dignitários estrangeiros, mas sua receita despencou e ela teve de adiar cirurgias lucrativas para atender vítimas do coronavírus. A rede relatou receita operacional líquida de US$ 1 bilhão em 2019, mas a previsão para 2020 é de perda de US$ 900 milhões, mesmo depois de demitir funcionários, reduzir salários de médicos e suspender projetos de construção.

O futuro não oferece boas perspectivas, pelo menos até a pandemia arrefecer e a economia se recuperar. A clínica dependerá muito de pacientes de baixa renda inscritos no Medicaid (programa de saúde social dos EUA) e, por outro lado, demais pacientes devem hesitar viajar pelo país, ou vir de outros países, para se tratarem ali.

Durante anos, o sistema de saúde americano ofereceu a muitos hospitais um manual de estratégia claro para lucrar: oferta de cirurgias, exames de imagem e outros serviços bem reembolsados para pacientes com seguro de saúde privado cujos planos pagam valores mais altos do que sistemas públicos como o Medicare e Medicaid.

A epidemia do coronavírus mostrou as vulnerabilidades desse modelo, com procedimentos cancelados, exames adiados e milhões de pessoas desempregadas perdendo o plano de saúde bancado pelas empresas enquanto trabalhavam. “A assistência médica sempre foi vista como à prova de recessão, mas não à prova de uma pandemia”, afirmou David Blumenthal, presidente do Commonwealth Fund, organização de pesquisa do setor de saúde. “O impacto econômico, somado ao medo do coronavírus, terá efeito tão desastroso sobre o sistema de saúde como jamais vi em toda a minha vida.”

A interrupção das operações hospitalares acabará deixando os americanos com menos acesso a tratamento, segundo analistas financeiros, economistas e especialistas políticos. Hospitais em dificuldade devem fechar ou excluir departamentos menos lucrativos. Alguns recorrerão a fusões com concorrentes próximos ou venderão cadeias de hospitais maiores. “É uma enorme ameaça à nossa capacidade de oferecer serviços básicos”, disse Blumenthal.

Os hospitais vêm perdendo um valor estimado de US$ 50 bilhões por mês, segundo a American Hospital Association. E 134 mil funcionários do setor estão entre os cerca de 1,4 milhão de trabalhadores da área da saúde que perderam seus empregos no mês passado, segundo dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho. Em todo o país, os hospitais registram entre 40% e 70% menos pacientes desde o fim de março até início de maio, muitos deles com datas marcadas para cirurgias ortopédicas ou exames radiológicos, que são procedimentos que dão lucro para os hospitais.

Elite. O declínio afeta grandes hospitais de elite, como a Clínica Mayo e a John Hopkins – que calcula perda de quase US$ 300 milhões até o próximo ano e já adotou programas de redução de gastos –, mas também hospitais suburbanos e pequenas clínicas da zona rural que já passavam por apuros financeiros.

Lifespan Health, uma rede de cinco hospitais em Rhode Island, adiou uma planejada construção de um novo centro de saúde. Em Wyoming, o hospital Weston County Health Services, que conta com 12 leitos, só tem dinheiro suficiente para se sustentar por mais 16 dias e os executivos estão pensando em fechar o pronto-socorro.

Hospitais com grande número de pacientes de coronavírus dizem ter sido fortemente afetados, uma vez que contabilizaram enormes gastos com a compra de equipamentos e aumento de funcionários, ao mesmo tempo que os serviços que prestam, mais lucrativos, ficaram paralisados. Pacientes de coronavírus permanecem no hospital por longo tempo em unidades de terapia intensiva, exigindo equipamentos caros como ventiladores e cuidados de múltiplos especialistas.

A Greater New York Hospital Association estima que em toda Nova York os grandes centros médicos universitários perderam entre US$ 350 milhões e US$ 450 milhões cada um no mês passado. Ao contrário dos hospitais que combatem surtos menores do coronavírus, eles não podem demitir os funcionários para compensar o declínio. “Em termos de cuidados dos pacientes, nossos hospitais fizeram a coisa certa. Mas ficou problemático conseguirmos nos sustentar”, diz um gestor.

Seguro. Durante a recessão de 2008, hospitais sem fins lucrativos registraram um aumento de 7% das receitas vindas do Medicaid, segundo a agência Moody’s, uma possível prévia das mudanças que deverão ocorrer. Minnesota espera matricular mais 100 mil moradores que estão no Medicaid no próximo ano. No plano nacional, o Urban Institute, sem fins lucrativos, projeta entre 8 milhões e 15 milhões de novos registros no Medicaid. E mais 5 milhões a 10 milhões de americanos que perderam seu plano privado devem adquirir um plano de saúde individual previsto no Obamacare, ou recorrer a outras fontes de seguro privado.

A Clínica Mayo espera receber mais pacientes segurados publicamente no segundo semestre, embora não tenha registrado aumento agora. Dennis Dahlen, o diretor financeiro da clínica, disse que “provavelmente veremos uma mistura de clientes locais e pessoas vindas de uma distância de 160 km”.

Hospitais independentes que já estão em situação ruim e sem estofo financeiro têm um risco maior de eliminar serviços ou fechar completamente as portas. O governo reservou US$ 12 bilhões de auxílio para hospitais que tratam cem ou mais pacientes de coronavírus, para compensar os altos custos de tratamento das pessoas cuja estadia num hospital pode durar semanas. Parte desse financiamento irá para o Providence Health System, que conta com 51 hospitais. O hospital tratou 1.200 pacientes com covid-19 e os dirigentes afirmam que, mesmo com os dólares do governo federal, o Providence ainda registrou um prejuízo de US$ 400 milhões em abril.

“Estamos nesta situação há muito mais tempo porque Seattle foi um foco da pandemia. Cancelamos cirurgias eletivas antes mesmo da ordem do governo. E tivemos um número grande de pacientes exigindo mais suprimento médico, isolamento e serviços de enfermaria. Nossos custos trabalhistas dispararam”, afirmou Ali Santore, vice-presidente do hospital para assuntos governamentais.

Fonte: O Estado de S.Paulo – 17/05/2020
Por Sarah Kliff

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