Empresas buscam soluções para a saúde

Há pelo menos 15 anos, a Whirlpool, fabricante das marcas Brastemp, Consul e KitchenAid, adota nas fábricas brasileiras o conceito “lean” de eficiência em manufatura. Há dois anos, porém, a empresa americana começou a perceber que os maiores desperdícios não estavam nas linhas de produção de geladeiras, fogões e outros equipamentos, mas em clínicas, laboratórios e hospitais que atendem seus 12 mil funcionários e 18 mil dependentes.

Em algumas localidades, havia excessos de indicações de cirurgias de redução de estômago para combater a obesidade; em outros, qualquer problema de coluna era resolvido em salas de cirurgia. Uma análise mais atenta chegou até um funcionário da fábrica de Manaus que havia sofrido um acidente de moto. Ele estava “internado” numa clínica havia mais de 90 dias sem qualquer evolução. “Contratamos um serviço de ‘home care’, que, além de mais barato para a empresa, garantiu mais conforto ao paciente”, afirma o vice-presidente de assuntos institucionais da Whirlpool, Armando Ennes do Vale Jr.

O desperdício é um dos principais motivos para o alto custo dos planos de saúde. De acordo com levantamento da consultoria Mercer Marsh, no ano passado, as empresas gastaram, em média, R$ 3,8 mil por plano de saúde de cada funcionário. O valor representa aumento de 48,7% quando comparado com 2012 e equivale a quase 13%, em média, da folha de pagamento das empresas no Brasil.

Várias companhias buscam soluções para equilibrar essa despesa. Sessenta e duas têm se reunido para trocar experiências em gestão de saúde. Um dos grupos é liderado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e outro, pela Aliança para a Saúde Populacional (Asap) em parceria com a Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH). Cada empresa tem sua estratégia, mas é unanimidade entre especialistas que tratar a saúde e não a doença é o melhor caminho para controlar o custo do convênio.

“No ano passado, as empresas investiram R$ 271,21 por funcionário em programas de qualidade de vida. Ainda é uma quantia pequena quando se leva em consideração a economia que as empresas podem ter com o plano de saúde”, diz Mariana Dias Lucon, diretora de consultoria e produtos da Mercer Marsh Benefícios.

Em 2012, o gasto médio com planos de saúde equivalia a 10% da folha de pagamento. Em 2017, o percentual foi para 12,7%, segundo a Mercer Marsh. “As companhias que adotam programas de gestão com ênfase no cuidar da saúde conseguem manter o gasto dos planos na casa dos 10% em relação à folha de pagamento”, diz Paulo Marcos Souza, diretor do Instituto Latino Americano de Saúde (Inlags), entidade que desenvolve programas empresariais.

Um exemplo considerado de sucesso no mercado é o da GE. Há oito anos, a fabricante de turbinas e equipamentos médicos criou uma rede de médicos e hospitais reconhecidos por prestar atendimento de melhor qualidade. A empresa paga um adicional a esses profissionais que atendem seus funcionários e faz, ainda, um acompanhamento sistemático do uso do plano de saúde. Graças a essa iniciativa, os custos baixaram. A composição dos valores dos planos de saúde é feita com base nos gastos com consultas médicas, laboratórios e hospitais mais a frequência de uso. Com seu programa de gestão, mesmo com a despesa extra com a rede médica selecionada, o gasto da GE com a saúde (incluindo o convênio médico) é menor do que o reajuste que vem sendo praticado no mercado. Em 2017, as despesas da GE com planos da empresa subiram cerca de 10% contra 19,2% calculado pelo Iess, instituto que mede os custos de planos individuais.

A Whirlpool contratou dois médicos para acompanhar não apenas os problemas de saúde dos funcionários como também para organizar programas de prevenção. Nessa linha, uma das novidades são os programas de premiação, como o sorteio de refrigeradores para funcionárias que comprovem ter feito mamografia naquele ano.

“No ano passado conseguimos 99% de participação”, diz Ennes. Além disso, a orientação para que os funcionários passem pelo ambulatório interno antes de correr para um pronto-socorro ajudou a reduzir idas aos hospitais. As internações, que representavam 75% dos gastos com plano de saúde da empresa, agora equivalem a 25%.

Há dois anos, a Volkswagen criou um banco de dados com 200 diferentes indicadores de 59 mil vidas sob sua responsabilidade, que incluem os 15 mil funcionários mais dependentes. Com base nesses dados, um programa de acompanhamento e de orientação reduziu em 25% o tempo de internação dos funcionários. Recentemente, a direção da montadora descobriu que entre 4% e 5% dos procedimentos médicos pelos quais os empregados já passaram não deveriam ter sido indicados.

A Clariant, empresa de especialidades químicas, também montou um banco de dados dos 1,2 mil funcionários e mais 1,8 mil dependentes e faz acompanhamento das ocorrências, com monitoramento constante do uso de pronto-socorro e UTI. Com 8 mil funcionários e 30 mil vidas, há quatro anos a Pirelli contratou um médico para integrar o quadro de executivos. Ele acompanha o dia a dia dos ambulatórios nas fábricas, exames em hospitais e laboratórios e conversa com operadoras.

Até as empresas de saúde buscam formas de reduzir o custo elevado do convênio médico. Os hospitais Sírio-Libanês, Albert Einstein, BP (Beneficência Portuguesa) e da Rede D’Or e a operadora Amil adotaram programas para que seus empregados passem primeiro por um clínico geral.

Com a adoção de um programa baseado em atenção primaria, o Sírio reduziu o custo per capita do plano de saúde em 27%. O projeto foi tão bem-sucedido que o hospital criou uma nova frente de negócios: implantar clínicas com seus médicos dentro das empresas. Os bancos Santander e Votorantim e o laboratório Fleury já têm consultórios do Sírio-Libanês em seus escritórios e unidades de atendimento. A meta é chegar no começo de 2019 com 25 clínicas médicas instaladas nas companhias.

Maior operadora do país, com 5,5 milhões de usuários de planos de saúde e dental, a Amil se deparava com o mesmo problema. Há um ano, a empresa fez mudanças no convênio oferecido aos 40 mil funcionários e 20 mil dependentes. “Nossa taxa de sinistralidade era alta. Sabe aquele ditado: casa de ferreiro, espeto de pau? “, diz Catia Porto, vice-presidente de capital humano do UnitedHealth Group Brasil, dona da Amil, em entrevista ao Valor em novembro. Todos subiram de categoria no plano, mas passaram a pagar coparticipação de 20% do valor do procedimento, cuja quantia não pode ultrapassar 5% do salário.


Fonte: Valor Econômico
– 19/10/2018
Por Marli Olmos e Beth Koike

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