Cuidado que não tem preço

Após a intensificação do compartilhamento de notícias falsas nos últimos anos, a importância da vacinação deixou de ser um assunto inquestionável. As fake news se disseminaram e não ficaram restritas ao campo da política. Inúmeros boatos a respeito de supostos perigos da vacinação demandaram ações em nível nacional e estadual. Foram necessárias intensificações de campanhas, bem como informações sobre o tema para dar conta do combate às notícias inverídicas que circulavam e levavam preocupação sobre eventos adversos pós-vacinação, a qualidade das agulhas usadas e até sobre o processo produtivo desses imunobiológicos.

Diante desse cenário, entidades como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Butantan e a Organização Mundial da Saúde (OMS) têm se dedicado a comprovar que as vacinas são eficazes e a reforçar que, em muitos casos, constituem o único meio de garantir proteção contra doenças graves, que podem gerar sequelas ou levar à morte. Atualmente, há 19 tipos delas oferecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e cujas aplicações ocorrem por meio de campanhas ou durante todo o ano, em unidades da rede pública. Vale ressaltar que o calendário de vacinação do Ministério da Saúde inclui todas as vacinas recomendadas pela OMS.

A definição do calendário de vacinação brasileiro ainda leva em consideração a quantidade de casos registrados, a gravidade das enfermidades e a quantidade de óbitos ou sequelas causados por elas. Hoje, graças ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), pessoas de todas as idades conseguem proteção contra diversas doenças por meio do SUS.

A criação do PNI, em 1973, colocou o país à frente no processo de erradicação de doenças sérias. Antes do programa, males como sarampo, coqueluche, difteria e poliomielite se manifestavam de forma endêmica, com números de casos chegando a 100 mil por ano, segundo o Ministério da Saúde. “A partir do aumento da nossa cobertura vacinal, conseguimos ter controle, eliminar ou erradicar essas doenças. Não temos qualquer caso de pólio desde 1994. Quando não vacinamos, automaticamente essas doenças podem voltar”, explica a coordenadora do PNI, Carla Domingues.

Embora o PNI seja de grande sucesso, tanto em nível nacional quanto internacional, dados da OMS apontaram quedas consideráveis nas coberturas vacinais para a maioria das vacinas do calendário nacional de vacinação desde 2015. Esses indicadores caíram principalmente em relação à poliomielite, sarampo, caxumba e rubéola (tríplice viral) e difteria, tétano e coqueluche (tríplice bacteriana). Antes de 2016, o sarampo era considerado eliminado. Entretanto, de lá para cá, o Ministério da Saúde contabilizou mais de 2,5 mil casos confirmados nas unidades da Federação. “Até 2015, alcançávamos uma cobertura de 95% com a maioria das vacinas, mas, no ano passado, apenas a BCG (protege contra outras formas de tuberculose) atingiu essa meta. Por isso, estamos fazendo uma mobilização nacional e chamando atenção para o risco do retorno de doenças no país”, afirma Carla.

Cuidado coletivo

Especialistas ressaltam que, quanto maior o número de pessoas não vacinadas contra uma determinada enfermidade, maiores são as chances de alguém contaminado transmitir doenças a outras pessoas. Diante disso, campanhas educativas governamentais e as próprias escolas têm papel importante no processo de informar a população sobre os perigos da falta de atenção ao calendário vacinal. Além deles, o ambiente familiar é importante para auxiliar no reconhecimento sobre a relevância da vacinação e dos cuidados com a saúde.

Morador de Taguatinga, Ulysses Araújo Bispo, 26 anos, lembra o apoio que teve da família para se manter atento à proteção contra doenças. “Sempre tivemos essa preocupação em casa, porque, a partir do momento em que você não se vacina, você traz problemas para você e para as pessoas ao seu redor”, observa o bancário.

Até hoje, ele guarda os cartões de vacina da infância e está com todas as doses em dia. “Raramente ficamos com as vacinas atrasadas.” Ele acrescenta que os demais integrantes da família desenvolveram um cuidado coletivo e que costumam lembram uns aos outros sobre o papel da vacinação. “Meus pais tiveram uma boa educação e nunca se deixaram influenciar por histórias de que as vacinas matam ou coisas do tipo. Para atingir um objetivo econômico ou político, muita gente se aproveita do medo que as pessoas têm. Acontece como diz o ditado: uma mentira contada mil vezes parece uma verdade”, completa Ulysses.

Sucesso

Para Luiz Lima, vice-diretor de produção de Bio-Manguinhos, unidade produtora de imunobiológicos da Fiocruz, a queda na adesão às vacinas e a divulgação de notícias falsas sobre elas resulta do próprio sucesso do PNI. “Ele tem um histórico de 45 anos e é um dos pilares da saúde pública brasileira que perpassou todas as frentes e diferentes governos ao longo do tempo. O sucesso desse programa foi a eliminação de doenças como a pólio e o sarampo. No Brasil, as novas gerações não conhecem algumas das doenças eliminadas por esse plano”, argumenta.

Ele ainda comenta que o país conta com três organizações voltadas à produção com foco interno, o Brasil é referência mundial principalmente no combate à febre amarela. “Funcionamos 24 horas por dia, sete dias por semana e 12 meses por ano. Um ciclo de produção pode demorar até três meses. Atuamos desde a primeira etapa do processo até a liberação das vacinas. Somando-se todos os nossos produtos, a estimativa da Fiocruz para 2018 é de 128 milhões de doses produzidas”, conta.

Fonte: Correio Braziliense – 19/12/2018

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