Carteirinha é passaporte da doença

Para diretor financeiro do Sírio-Libanês, lógica atual é insustentável

A maior fatia dos ganhos dos hospitais ainda é gerada pelos materiais e medicamentos consumidos. No paulistano Sírio-Libanês, por exemplo, esses itens geram 52% das receitas. No entanto, há uma percepção geral de que essa fórmula está se esgotando porque estimula a doença — não a saúde. Por essa lógica, quanto mais a situação do paciente se complica, melhor para o hospital e pior para o plano de saúde.

— É insustentável. Pior do que eu não ter dinheiro é quem me paga não ter dinheiro — diz Fernando Torelly, diretor financeiro do Hospital Sírio-Libanês.

Com clareza, Torelly descreve o atual cenário da saúde suplementar no Brasil: o médico está insatisfeito com os honorários que recebe das operadoras. O convênio está insatisfeito com a sinistralidade elevada. O empregador está insatisfeito porque paga demais pelo plano. O hospital está insatisfeito porque as tabelas pagas pelos planos de saúde são ruins. O cliente está insatisfeito porque há demora no pronto- socorro e ele não consegue ter um bom atendimento.

— A carteirinha do plano de saúde virou o passaporte da doença — diz Torelly.

Uma das formas de reduzir os desperdícios é questionar a pertinência do que é feito. Inspirado pelos centros de atenção primária de países como os do Reino Unido, o Sírio criou ambulatórios com médicos de família nas empresas. A primeira unidade foi instalada no Banco Votorantim, em São Paulo. Até o fim do ano, mais dez serão inauguradas. Como cerca de 80% dos casos atendidos por médicos de família são resolvidos, os custos para os empregadores diminuem.

— Somos um hospital que tem toda a sua receita vinda da doença. Agora estamos entrando em um modelo de negócios focado na saúde — comenta Torelly.

Nessa aposta, o empregador paga um valor fixo para o hospital cuidar de cada trabalhador. Ao identificar casos que realmente necessitam de atendimento especializado, a instituição vai gerar demanda para seus centros de diagnóstico e tratamentos mais dispendiosos. Ou seja: o hospital pode receber menos por paciente, mas vai ganhar na escala.

A mudança acontece também na relação com as operadoras. Ainda neste ano, o Sírio vai inaugurar em Brasília um hospital que será remunerado pelos convênios de acordo com os desfechos clínicos alcançados pelo paciente — e não mais por volume de procedimentos.

Por Cristiane Segatto

Fonte: O Globo – 17/06/2018

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