As questões em torno da telemedicina no Brasil

O atendimento remoto se populariza com o distanciamento social, mas ainda gera polêmica entre os médicos

Recuperado da Covid-19 após 30 dias de internação, dos quais dez na UTI, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, o empresário Antonio Eduardo Garieri recebeu alta no dia 8 de junho e uma orientação específica: levaria para sua cidade, Araçatuba, a cerca de 500 quilômetros de São Paulo, um oxímetro, aparelho responsável por medir a saturação do pulmão em tempo real. Já instalado em casa, Garieri passou a dormir com o equipamento preso à ponta do dedo indicador e próximo ao telefone celular, responsável por repassar os dados a seu pneumologista.

Um dos efeitos colaterais do novo coronavírus foi ter dado um impulso inédito à telemedicina por todo o país. O ponto de partida foi em março, quando o Ministério da Saúde regulamentou atendimentos médicos à distância durante a pandemia. O texto autorizou a emissão de atestados ou receitas em meio eletrônico para atender à demanda de pacientes com suspeita de infecção por coronavírus, dos convalescentes de Covid-19, como o empresário de Araçatuba, e também de milhões de brasileiros com outros sintomas que, nos últimos quatro meses, passaram a ter receio de sair de casa para uma consulta médica ou ir ao hospital.

Esse foi o caso do programador de computadores Amaury Souza, de 30 anos. Praticamente fechado em sua casa na Vila Mariana, na Zona Sul da capital paulista, onde trabalha remotamente desde o início da pandemia, Souza foi acometido por uma dor de ouvido no final da noite do dia 18 de junho. Passava das 22h30 quando entrou no aplicativo de seu plano de saúde e não hesitou em solicitar atendimento por telemedicina. Respondeu a algumas perguntas e, em cerca de 5 minutos, estava em contato com um médico por meio de vídeo. Antes da meia-noite já tinha sido diagnosticado (otite, uma infecção no ouvido) e recebido por SMS a receita do antibiótico para começar o tratamento. O médico que o atendeu estava em Cascavel, no Paraná, e a consulta levou menos de dez minutos. ‘A imagem não estava totalmente nítida, mas não atrapalhou a comunicação’, disse Souza. ‘O médico perguntou sobre meus sintomas, se eu tinha secreção no ouvido e se havia odor, por exemplo. Eu confirmei. Foi conveniente e poupou meu tempo’, completou.

‘O Brasil tem vastas regiões com poucos médicos. Com a liberação da telemedicina, profissionais no sul e sudeste já estão atendendo pacientes no interior do Amazonas’

Uma das vantagens da telemedicina comprovada nos últimos meses é ampliar o atendimento de populações que se encontram longe dos grandes centros. Rodeada por suas gatas em seu apartamento em São Paulo, a médica capixaba Geovana Amaral Huber, de 31 anos, trabalha para uma plataforma on-line. Ela chega a atender 60 pacientes e supervisiona outros 15 colegas ao longo de uma jornada de trabalho média de 12 horas. ‘Desde que me formei, em 2016, nunca trabalhei tanto’, disse.

No último dia 31, Huber atendeu por chamada de áudio um paciente jovem com quadro de sintomas gripais em Tapauá, no interior do Amazonas. Com 17 mil habitantes, o município está nas últimas posições do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), utilizado pela ONU para medir a qualidade de vida. O paciente não apresentava sintomas como falta de ar e febre, que são sinais de alerta para a Covid-19, mas segue monitorado e passa bem. ‘A gente resolve cerca de 80% dos casos por telefone, já que muitos são simples, como uma micose no braço’, afirmou Huber.

O Brasil é um dos países onde a distribuição de médicos por habitantes é mais desigual. Na média, a situação parece boa. Segundo um levantamento recente do Conselho Federal de Medicina, o país tem 2,5 médicos por 1.000 habitantes, o que supera a proporção registrada na Coreia do Sul (2,3), na Polônia (2,4), no Japão (2,4) e no México (2,4). O problema é a distribuição geográfica. Em estados da regiões Norte e Nordeste, esse índice cai pela metade. É justamente por isso que o exemplo de uma médica radicada em São Paulo atendendo um jovem de um lugar a três dias de barco de Manaus parece promissor.

Em São Paulo, o projeto Tele-UTI ajuda a rede pública de saúde em casos de síndrome respiratória aguda grave por Covid-19. A iniciativa funciona no Instituto do Coração (Incor), onde um posto de telemedicina atende a consultas de intensivistas de dez hospitais públicos por videoconferência. Os médicos discutem a evolução dos casos graves de internados numa tentativa de aprender, juntos, sobre uma doença desconhecida que exige manobras especiais dos fisioterapeutas e operações específicas dos respiradores mecânicos. ‘Até agora, mais de 500 profissionais de saúde foram treinados e 1.500 atendimentos prestados’, disse o pneumologista do Incor Carlos Carvalho, um dos idealizadores do projeto e também chefe do Centro de Contingência do Coronavírus, em São Paulo.

Entre os médicos, a novidade já conquistou o apoio de figuras renomadas. Uma delas é Roberto Kalil Filho, cardiologista do Hospital Sírio-Libanês, também conhecido como o ‘médico dos presidentes’ por já ter atendido José Sarney, Fernando Collor, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer. Kalil começou a usar a telemedicina por causa da pandemia, especialmente para atender pessoas de outros estados. ‘A telemedicina veio para ficar. É uma ferramenta que facilita muito o cuidado com o paciente. É um ótimo exemplo de como a tecnologia evoluiu em favor da saúde’, opinou.

O entusiasmo despertado pela novidade tem provocado uma reação contrária quase na mesma medida. Parte das críticas tem origem no corporativismo médico. Muitos na categoria ainda insistem em dizer que 100% dos atendimentos aos pacientes devem ser presenciais, algo que já não fazia sentido muito antes da popularização da internet e da comunicação em vídeo (qual o pai ou mãe que nunca ligou para o pediatra quando um filho ficou com febre?). Mas, descartando esses argumentos mais extremos, é certo que existem várias questões que deverão ser debatidas no período pós-pandemia. ‘Tem exames que só por foto ou por imagem não é possível fazer, como a medida da pressão do olho’, disse José Beniz, presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia.

‘Para o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Madetta, a lei que regulamenta a telemedicina precisa ser revista porque ainda há várias lacunas’

Luiz Henrique Mandetta, o ex-ministro da Saúde responsável pela liberação da telemedicina durante a pandemia, reconhece que existem desafios pela frente. Após a portaria do ministério ainda sob seu comando, o Congresso passou uma lei sobre o assunto, que foi adotada com vetos pelo presidente Jair Bolsonaro – o principal deles foi tirar do Conselho Federal de Medicina o papel de fazer a regulamentação desse novo mercado. Na opinião do governo, o debate terá de voltar ao Congresso e uma nova legislação terá de ser aprovada. ‘A lei que temos hoje não dá conta de tudo. Não consegue estabelecer, por exemplo, se a primeira consulta tem de ser presencial. Temos agora o mercado de telemedicina e a questão salarial. É muito difícil sustentar essa discussão sem cair numa polêmica’, explicou Mandetta.

Uma das grandes preocupações das entidades médicas é o risco de a categoria sofrer um processo de uberização. Profissionais reclamam de um achatamento dos valores pagos nas consultas por telemedicina. Conselhos regionais de medicina e sindicatos defendem que os pagamentos de consultas por telefone ou pela internet devem ser iguais ao do atendimento presencial, conforme preconiza a Agência Nacional de Saúde (ANS). ‘O que deve ser pago é o ato médico. O que se remunera é o conhecimento e o tempo do médico. Mas as operadoras de saúde estão preocupadas em reduzir custo e pagam a metade do valor. Está certo isso?’, perguntou Claudio Moura de Andrade Júnior, membro do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj).

No setor empresarial, a liberação da telemedicina deu início a uma espécie de corrida pelo ouro. Diversas empresas que atuam na área de saúde e até hospitais renomados como o Albert Einstein e o Sírio-Libanês passaram a oferecer esse serviço. De modo geral, a aposta é que as arestas serão sanadas e os serviços continuarão mesmo depois de passada a pandemia. Com atuação em 130 países, a americana Teladoc é uma das maiores plataformas do ramo no Brasil. A empresa afirma fazer mais de 70 mil atendimentos mensais. Segundo Jean Marc Nieto, o diretor-geral, a companhia cuida de mais de ‘5 milhões de vidas’, termo usado para descrever o número potencial de clientes que pode atender por meio de parcerias e contratos com planos de saúde e empresas privadas. ‘É um caminho sem volta. Em termos de clientes, potencialmente é toda a população brasileira’, disse Nieto, que tem 700 médicos cadastrados em sua plataforma e pretende chegar a 5 mil em seis meses.

Uma das companhias que quer ampliar suas atividades nesse mercado é o grupo Iron, que hoje diz atender mais de 700 mil pessoas no país por meio de telemedicina – a maior parte do público é da Cassi, que administra os planos de saúde dos funcionários do Banco do Brasil. Jorge Ferro, presidente da Iron, contou que a companhia, cuja atuação mais forte é em Portugal, lançou uma nova plataforma on-line no Brasil no mês passado.

Fonte: Época Online – 10/07/2020
Por Gustavo Schmitt

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