A divisão da conta

Faz sentido que planos contem com dispositivos que promovam comportamento mais parcimonioso

Quando você vai com um grupo grande de amigos ao restaurante, há basicamente dois modos de repartir a conta. Ou cada um paga pelo que consumiu, ou o total é dividido pelo número de comensais. A forma escolhida tem impacto sobre o conjunto dos pedidos.

Se as despesas serão divididas igualmente, a tendência é que a conta fique mais alta. Mesmo que não haja nenhum espertalhão para encomendar o vinho mais caro do cardápio (afinal, estamos entre amigos), os participantes não se preocuparão muito em conter seus gastos, já que decisões individuais afetam apenas marginalmente o valor final (estamos num grupo grande).

Algo parecido vale para os planos de saúde. Se a mensalidade paga pelo cliente é a mesma independentemente do uso, a tendência é que o contratante e seu médico não economizem na hora de solicitar exames e procedimentos. Ambos se sentem mais seguros, ainda que mais testes por vezes signifiquem menos saúde. Como os custos são diluídos por todos os usuários, as mensalidades ficam mais elevadas.

Faz sentido, portanto, que os planos contem com dispositivos contratuais que promovam um comportamento mais parcimonioso, como o são a coparticipação e a franquia, que a ANS tenta agora regular. A tarefa, porém, é difícil.

Saúde não é uma commodity como outra qualquer. Se a ausência de restrições é sinônimo de desperdício e até de alguma iatrogenia, o excesso delas pode resultar em diagnósticos tardios, que não só implicam mais custos como pioram o prognóstico do paciente.

A ANS tenta reduzir os danos potenciais criando listas de procedimentos muito básicos ou destinados a doentes crônicos que ficam isentos de pagamentos adicionais. É o que dá para fazer. Mas não existe mágica. Pode-se discutir a divisão da conta, mas não dá para contestar o fato de que, quanto mais coisas os planos tiverem de pagar, mais caras serão as mensalidades.

Por Hélio Schwartsman

Fonte: Folha de S. Paulo – 04/07/2018

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