Polícia faz operação contra grupo suspeito de lavar dinheiro de fraude em cirurgias de próteses no RS

Fonte: G1 – RS – 27/02/2018
 
Suspeitos usavam lojas de artigos para bebês e crianças em nome de laranjas para ‘esquentar’ dinheiro, conforme a polícia. Imóveis e veículos de luxo estavam em nome de terceiros.
 
Por Giovani Grizotti
 
Polícia Civil do Rio Grande do Sul realizou na manhã desta terça-feira (27) operação contra uma quadrilha suspeita de lavagem de dinheiro obtido por meio de fraude em cirurgias de próteses, esquema que veio à tona em 2015. Conforme a investigação, o médico traumatologista Fernando Sanchis teria ocultado bens em nome de laranjas.
 
A reportagem ainda não conseguiu contato com a defesa do médico.
 
Foi determinado o sequestro de 20 imóveis e oito veículos, além do bloqueio de contas bancárias dos investigados. As 12 ordens judiciais foram cumpridas em Porto Alegre e no Litoral Norte do Rio Grande do Sul.
 
Entre os alvos está o apartamento onde mora o suspeito, no bairro Mont’ Serrat, área nobre da capital gaúcha, e nas três lojas investigadas.
 
A investigação durou cerca de um ano, e revelou que o homem lavava dinheiro por meio de estabelecimentos comerciais do ramo de artigos para bebês e crianças. Conforme o Ministério Público, além do médico e da esposa, o cunhado e uma amiga do casal também são investigados.
 
Foram apreendidos documentos, computadores e celulares que, segundo o MP, podem comprovar que o casal era o verdadeiro proprietário das lojas.
 
“O que a investigação buscou, é identificar este patrimônio, por mais que no início possa não ter sido todo esse volume, mas os lucros são acessórios daquele ganho que ele teve com a atividade criminosa”, afirmou o delegado Cristiano Reschke, responsável pelas investigações.
 
Ele explica que o bloqueio de bens, avaliado em cerca de R$ 20 milhões, tem o objetivo de garantir o ressarcimento de vítimas.
 
O dinheiro investigado, conforme a polícia, havia sido obtido por meio de fraude junto ao Instituto de Previdência do Estado (Ipergs), planos de saúde e vítimas, que eram levadas a realizar cirurgias desnecessárias. O caso ficou conhecido como máfia das próteses, que foi alvo da operação Bones, investigado entre 2015 e 2015.
 
A primeira fase da investigação resultou na responsabilização dos investigados pelos crimes de organização criminosa, estelionato, e falsidade ideológica. Os prejuízos ao estado chegam a R$ 1,7 milhão. O esquema ocorria desde 2014, com a solicitação de procedimentos cirúrgicos pagos pelo Ipergs, com valores muito superiores aos praticados pelos médicos credenciados junto ao instituto.
 
Na consulta com o médico investigado, os pacientes eram informados sobre a necessidade de cirurgia, mas ele alegava que o material oferecido pelo estado não era de boa qualidade. Advogados, também denunciados, então, entravam na Justiça para obrigar o Ipergs a pagar por materiais importados mais caros.
 
Em dois anos, foram ajuizadas mais de 80 ações, quase idênticas, contra o Ipergs. Ao final da investigação, 13 pessoas foram denunciadas.
 
Lavagem de dinheiro no 2º round
Conforme a polícia, testemunhas relataram que, apesar do mercado para a venda de artigos para bebês estar em crise, as lojas da organização comandada pelo médico recebiam cada vez mais investimentos, com a abertura de novos estabelecimentos.
 
Para a Polícia Civil e o Ministério Público, o objetivo da abertura das lojas não era o lucro, mas sim justificar de forma fictícia e simulada o faturamento de dinheiro em volume compatível com o patrimônio dos investigados.
 
Pessoas próximas dos suspeitos eram usadas como laranjas para o registro da empresa na Junta Comercial, e para o registro de carros e imóveis de luxo em Porto Alegre, e mansões em condomínios de luxo no litoral gaúcho. Além disso, uma separação do casal teria sido simulada para impedir o bloqueio de bens.
 
“Se identificou [na segunda fase] da investigação uma possível fraude por meio de uma simulação de separação, para que havendo a separação, e a esposa, companheira, não estando nesta investigação, o patrimônio que ela levasse, ficasse mais difícil de se atingido. Talvez esse foi o raciocínio do nosso investigado”, disse o delegado.
 
De acordo com o promotor Marcelo Tubino, que também atua no processo, desde a primeira fase da investigação “surgiu a informação de que estes criminosos lá denunciados estariam aplicando este proveito do crime em outra atividades econômica. Muito provavelmente, neste primeiro momento, fazendo circular este dinheiro, e também lucrando com este patrimônio ilícito”, afirmou.
 
Conforme o promotor, apesar do processo em andamento, nas redes sociais o investigado não escondia que seria o verdadeiro proprietário das lojas. “Mas ao mesmo tempo, perante à Junta Comercial, perante aos órgão no poder público, eles não são os proprietários. Então ficou bem evidente uma manobra de ocultar e dissimular esta riqueza”, disse.

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