Perspectivas econômicas para a saúde suplementar em 2018

Fonte: Revista Visão Saúde – 07/02/2018

 

Por Leandro Fonseca

 

Atendendo a convite desta publicação, este breve artigo pretende tratar das perspectivas econômicas para o setor de saúde suplementar em 2018. Uma revisão a posteriori deste texto pode levar à tentação de julgar sua capacidade preditiva. Contudo, em análises deste tipo, o importante não é sua validação ex-post, mas o próprio exercício de reflexão a partir de um ou mais cenários, já que os agentes econômicos se posicionam e tomam suas decisões a partir deles. Na conceituação clássica de Porter1, a estratégia de uma empresa, ou seja, sua proposição de valor distintiva, é o que sustenta sua vantagem competitiva. Assim, para a escolha do conjunto de atividades que constitui a sua proposição de valor diferenciada, a empresa deve ponderar os diferentes cenários e os fatores conjunturais relevantes em suas decisões para que entregue valor aos seus clientes de forma consistente com a sua estratégia. No caso da saúde suplementar, a análise de cenários mostra-se crucial para eventuais ajustes que tornem a estratégia mais sustentável, haja vista ser esse um setor econômico com margens líquidas tradicionalmente mais estreitas do que outros.

 

Para 2018, o cenário econômico base das principais análises de mercado é de crescimento em torno de 2,5% do PIB e inflação em torno de 4%, com a taxa de desemprego recuando modestamente para menos de 12%. No caso da saúde suplementar, a recuperação econômica, contudo, deverá ser mais lenta. Mesmo que haja aumento na quantidade de beneficiários acompanhando a recuperação esperada no emprego formal, os custos assistenciais poderão sofrer impacto maior no curto prazo por conta de demandas de utilização represadas durante o período de desemprego. Assim, em que pese a expectativa de melhora do cenário macroeconômico, o setor de saúde suplementar deverá ter um 2018 desafiador por conta da tendência de custos em alta e também pela maior dificuldade em repassar essa variação de custos aos contratantes.

 

Nesse diapasão, tendo em vista a dinâmica setorial de preços e custos há anos em elevação, faz-se necessário um debate mais ampliado sobre o desafio do financiamento dos serviços de saúde. As características intrínsecas do setor de gerarem menores ganhos de produtividade, associadas a uma demanda cada vez maior por serviços de saúde, aos problemas decorrentes da chamada indução da demanda pela oferta, ao processo difuso de incorporação de novas tecnologias em saúde e ao envelhecimento populacional, trazem inexoráveis questionamentos: como podemos ter uma trajetória mais sustentável de custos? Como poderemos financiar o acesso aos serviços de assistência à saúde que tendem a encarecer? Em que pesem os esforços indutores do órgão regulador visando maior eficiência setorial, é de se esperar que as próprias operadoras, por meio de suas estratégias, tenham uma proposição de valor distinta que lhes permita vantagem competitiva, cuja continuidade, além de reforçar a sua reputação, garanta a sustentabilidade organizacional no longo prazo. Portanto, são as lideranças empresariais que, no âmbito de suas decisões, determinam estrategicamente onde suas organizações querem chegar e de que forma estarão posicionadas, seja em um cenário base esperado seja em cenários alternativos. Os últimos anos de crise econômica trouxeram enormes desafios ao setor. O próximo ano, mesmo superada a crise, trará inexoravelmente com ele o desafio do acesso sustentável aos serviços de saúde diante de um modelo assistencial que tende ao encarecimento.

 

É crucial, portanto, avançar na discussão sobre como arrefecer a exponencial de custos aos consumidores e proteger o interesse público em prol de uma saúde suplementar sustentável, tendo em vista sua enorme relevância econômica e social.

 

Diante desse desafio, é preciso discutir como incorporar novas tecnologias, como financiar o seu acesso e quais as responsabilidades de cada um no modelo assistencial. Um bom desenho institucional, legitimamente estabelecido e com os incentivos na direção correta, é fundamental para viabilizar a assistência à saúde com qualidade e a um custo suportável pela sociedade. Todavia, independentemente de qualquer mudança legal, regulatória ou de cenário, uma estratégia competitiva efetiva é determinante para as organizações.

 

Algumas operadoras já realinharam suas estratégias com uma proposição de valor em prol do cuidado e orientação do usuário na rede, promovendo a boa medicina e a gestão de saúde para entregar valor aos seus clientes. O futuro dirá quais operadoras têm estratégias que serão bem-sucedidas e sentenciará aquelas que não atenderem a expectativa de valor de seus clientes.

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