“Médicos de antigamente” ganham destaque na pandemia

Profissão em baixa, os ‘médicos de antigamente’, que cuidam do mesmo paciente por toda a vida, ganham destaque no combate à covid-19

Com o avanço da covid-19 nas periferias e municípios do interior, ficou mais evidente a falta de médicos de família e comunidade no Brasil. O estudo “Demografia Médica no Brasil 2018”, uma das pesquisas mais recentes sobre o setor, indica um número reduzido de profissionais da área.

“A medicina de família e comunidade contava, em 2017, com apenas 5.486 médicos ou 1,4% do total de especialistas no país”, afirma Mário Scheffer, coordenador da pesquisa e professor da Faculdade de Medicina da USP. Os baixos salários, a inexistência de um plano de carreira dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) e a má distribuição de recursos no dia a dia de trabalho são razões apontadas pela fuga de talentos dessa especialidade.

De acordo com o levantamento, que vai ganhar uma versão atualizada no segundo semestre, a escassez de currículos começa a ganhar forma na saída da universidade. A especialidade de medicina de família e comunidade é a 15ª opção dos recém-formados para a residência médica, entre um conjunto de 53 áreas, com apenas 1,5% do total de interessados. Fica no mesmo patamar de endocrinologia (1,6%) e cirurgia plástica (2%).

Para se ter uma ideia, cinco especializações (pediatria, clínica médica, cirurgia geral, ginecologia e obstetrícia-anestesiologia) reúnem 48,3% das preferências dos diplomados que chegam à residência. E mais: dos quase 500 mil médicos no país, de todas as áreas, 55% estão concentrados somente nas capitais.

Os profissionais de medicina de família e comunidade são conhecidos como a versão moderna do “médico de antigamente”, que acompanhava os pacientes por toda a vida. Têm uma rotina que inclui o trabalho em unidades de atenção primária, portas de entrada preferenciais do SUS, o atendimento em consultórios e visitas domiciliares.

Também são considerados “gatekeepers” ou controladores do acesso dos doentes a outros serviços de saúde. Graças à atuação diária nas comunidades e por conhecerem especificidades regionais, podem ser peças-chave no monitoramento da covid-19 e no pós-pandemia.

“Esses especialistas são importantes agora porque conseguem dar respostas rápidas a pacientes com fatores de riscos, que precisam de orientação”, diz a médica de família e comunidade Denize Ornelas, diretora de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), fundada em 1981.

Denize diz acreditar que a falta de interesse dos novos médicos pelo ramo deve-se à pouca atratividade das recompensas profissionais. “Como em todos os países do mundo, [no Brasil] a atenção primária não é o campo da saúde que paga os salários mais altos ou oferece as melhores condições de trabalho”, diz. Estima-se que um profissional em metade de carreira possa ganhar até 30% a menos do que outro especialista, como endocrinologista, na mesma posição.

Rita Helena Borret, médica de família e comunidade em uma unidade de atenção básica no Jacarezinho, favela da zona norte do Rio de Janeiro (RJ) com cerca de 50 mil habitantes, afirma que há caminhos para mudar o quadro de esvaziamento. “Deve-se aproximar os estudantes da graduação a práticas de atenção primária resolutivas e valorizar a carreira dentro do SUS”, diz ela, também doutoranda pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp-Fiocruz).

Rita é uma das autoras do guia “Orientações para Favelas e Periferias”, para a prevenção da covid-19. O material é distribuído pelas redes sociais, para profissionais de saúde, movimentos sociais e associações de moradores. Traz informações como o uso correto de máscaras ou o que fazer quando ocorre uma morte em casa. “Por conhecermos de perto as necessidades da população, podemos identificar as principais vulnerabilidades que devem ser consideradas nestes dias.”

Segundo Mariana Maleronka Ferron, médica de família e comunidade e professora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein (Ficsae), ligada ao hospital paulista, falta estímulo para a formação de clínicos na área. Em 2014, com a criação de novas diretrizes curriculares para a medicina, ampliou-se o peso da atenção primária nas graduações. “Apesar disso, em grande parte dos cursos, uma parcela significativa dos professores não são médicos de família, levando à elaboração de currículos distantes da prática e reforçando a ideia de que não é necessário ter uma formação específica para atuar”, afirma.

A primeira turma de medicina da Ficsae, iniciada em 2016, será diplomada no fim de 2021 – disciplinas sobre atenção primária e medicina de família estão presentes em todos os semestres do curso. Não há informações sobre a quantidade de alunos que seguirão a carreira.

Mariana diz que os médicos de família e comunidade estão desempenhando um papel fundamental no combate à pandemia, principalmente em países que enfrentam o problema com relativo sucesso, como Portugal. O país cruzou a barreira de 1,5 mil mortos pela doença no começo da semana, enquanto a vizinha Espanha já ultrapassou 28 mil óbitos. “Ter um vínculo com os pacientes auxilia no monitoramento individual e ajuda a desafogar os serviços de emergência”, diz Mariana. “Além disso, na fase de saturação dos hospitais, os profissionais acompanham outros problemas de saúde que não desapareceram e podem, inclusive, estar exacerbados por conta da quarentena.”

O professor Rubens Bedrikow, coordenador da área de saúde de família e comunidade da Unicamp, afirma que aumentou a quantidade de vagas autorizadas para residentes do primeiro ano dos programas de residência no setor. De acordo com dados da Comissão Nacional de Residência Médica, esse número passou de 1.289 para 3.587 posições, entre 2014 e 2018, um salto de 180%. “No entanto, muitas continuam sem demanda.” Em 2017, cerca de 74% das colocações não foram ocupadas pelos residentes.

Na visão de Bedrikow, o entusiasmo dos alunos pelo segmento pode ser despertado ainda na universidade, mas também depende de como a estratégia de saúde da família funciona no município onde iniciarão a trajetória profissional. “O interesse pode surgir depois de estágio bem organizado ou com um professor que exerça uma influência positiva.”

Fonte: Valor Econômico – 26/06/2020
Por Jacilio Saraiva

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