Jovens mais pobres são vulneráveis à covid-19

Estudos destacam fatores de risco nessas faixas de idade e de renda.

Fonte: Valor Econômico 


Brasileiros em idade ativa, principalmente pobres, também estão vulneráveis à covid-19, diz Marcelo Neri, diretor do FGV Social. Segundo ele, em boa parte, os jovens daqui estão mais desprotegidos frente à pandemia que os de outras nações que vêm enfrentando a crise – em geral onde idosos são o grupo de maior vulnerabilidade. No Brasil, porém, os mais moços foram os “grandes perdedores” da mais longa recessão da história.

“De maneira geral entre os jovens, a renda da metade mais pobre caiu 24,24%, ante queda de 14,66% da média geral. A depender da evolução da pandemia no Brasil, esses aspectos podem estabelecer diferenças importantes em relação aos países que estão enfrentando a mesma crise, tanto pelo dado da distribuição de renda quanto da organização urbana”, afirma o economista, ex-ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Os números reportam os primeiros resultados do “Atlas das Juventudes”, que será lançado em sua versão completa em breve, explica ele. Neri ressalta que o Brasil não só viveu uma grande recessão, como foi seguida de recuperação muito lenta que ainda estava em progresso, diferentemente do resto do mundo. Isso se tornou uma barreira principalmente para jovens que precisam ser inseridos ou se manter no mercado de trabalho.

“Além disso, o Brasil tem como outra fragilidade suas favelas e periferias, que são áreas densamente ocupadas sem qualquer infraestrutura urbana, além de habitadas, em maioria, por jovens. Todas essas condições reunidas contribuem para os fatores de risco”, destaca ele. “Quando nos voltamos para esse lado da crise pandêmica e de saúde que interage com a economia, vemos também como ponto vulnerável o grande grupo perdedor da retração do crescimento.”

Neri observa que o isolamento social visa proteger acima de tudo os idosos, mas prejudica – “por bons motivos, diga-se de passagem”, frisa ele – os jovens que não conseguem trabalhar ou estudar. “Há uma redistribuição intergeracional na resposta a pandemia.”

A pesquisa Juventude e Trabalho, coordenada pelo economista, aponta que a população entre 15 e 29 anos, principalmente os mais pobres, foram os mais prejudicados na distribuição da renda durante a recessão. De 2014 a 2019, embora os dados de 2019 ainda não estejam de todo fechados – e mesmo com a redução de desemprego nesse último ano -, esses brasileiros perderam em média 14% de renda do trabalho.

Na comparação por grupos sociais – e aí Neri inclui mulheres, negros, nordestinos, trabalhadores rurais, estratos tradicionalmente excluídos ou em desvantagem econômica -, os números mostram que a renda do grupo etário até os 30 anos caiu 24,24%.

“Essa pandemia chega ao Brasil num contexto complexo, com o organismo econômico debilitado e os jovens mais pobres ainda”, diz o economista. De 2014 a 2018, a renda média do brasileiro caiu 2% no acumulado. Já os rendimentos dos 5% mais pobres recuaram 39% nesses quatro anos – uma queda muito mais profunda do que a da renda média geral, aponta Neri.

Estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) mostra como os diferentes perfis de vulnerabilidade da população brasileira à covid-19, no tocante às condições de saúde, econômicas e de habitação, adicionam complexidade no desenho de ações de enfrentamento à doença e também transcendem a questão etária. Em particular, diz Letícia Nunes, pesquisadora em economia da saúde no Ieps, está a questão de como e quando flexibilizar medidas de distanciamento social.

“É importante caracterizar como as vulnerabilidades se distribuem na população. Um dos principais pontos do estudo é mostrar que a covid-19 não atinge de forma mais grave apenas os idosos, que tendem a ser o primeiro grupo que pensamos em termos de fragilidade à doença”, pontua ela, autora ao lado de Rudi Rocha (Ieps e FGV) e Gabriel Ulyssea (Ieps).

No levantamento, o Ieps aponta que fatores de risco como doenças crônicas, obesidade e tabagismo acometem mais de 40% da população com idade inferior a 60 anos. “São pessoas que também estão sujeitas a desenvolver quadros mais graves da covid. Infelizmente, temos visto no Brasil incidência alta de fatalidades e complicações entre os mais jovens. Além disso, esses fatores de risco são ainda mais presentes na população de menor escolaridade. Para quem tem até o ensino médio incompleto, a ocorrência dessas condições aumenta em 10%”, diz Letícia.

Para ela e os colegas do Ieps que se debruçaram sobre os números da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) e da Pnad Contínua, o embasamento com informações de qualidade é crucial para desenhar e implementar estratégias de reabertura da economia. A informalidade também é destaque na análise do Ieps, já que a população mais jovem tem percentual maior de trabalho sem vínculo. Ao se observar essa distribuição por idade, há um padrão que se mantém estável entre os 18 e 59 anos, variando entre 30% e 34% para aqueles que não completaram o ensino médio. Para os que concluíram essa etapa de estudos, a taxa de informalidade fica entre 20% e 25%. Já a partir dos 60 anos, há uma queda acentuada e contínua na prevalência de informais, o que é compreensível tendo em vista a menor participação do grupo no mercado de trabalho.

“Mostramos ainda a distribuição das vulnerabilidades por Estados. Os que possuem uma situação mais preocupante são os do Norte do país, como Amazonas, Amapá e Pará. Têm tanto percentual alto de fatores de risco quanto de informalidade. Nesses locais, 43% ou mais da população são idosos, portadores de doenças crônicas, obesos, são ou foram fumantes, e ao menos 30% são informais. E além disso, esses Estados têm leitos de UTI abaixo do mínimo necessário para atender à população em condições normais”, destaca Letícia.

Fonte: Valor Econômico – 14/05/2020
Por Leila Souza Lima — De São Paulo

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