Eficiência com custos menores.Operadoras conseguem reduzir despesas e repassar a redução para os consumidores.

Apesar da expectativa de queda no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2015, o faturamento das seguradoras e operadoras de planos de saúde deve crescer acima de um dígito neste ano, como resultado do maior avanço dos planos no segmento de pequenas e médias empresas e do repasse dos custos assistenciais dos planos de saúde aos consumidores.

Para garantir o crescimento nos próximos anos, as empresas de planos de saúde estão com foco na gestão interna e nos programas de prevenção.

O ritmo de evolução do número de beneficiários, no entanto, deve acompanhar a desaceleração da economia. A Federação Nacional de (FenaSaúde) projeta crescimento ele 2% para 2015 – e um pouco acima disso para os planos exclusivamente odontológicos. A curva declinante, do patamar de 3,5%, começou em 2013, mas permanece acima do crescimento populacional, que não chega a 1% ao ano, segundo a entidade.

Um dos destaques do ranking de planos de saúde de Valor 1000 é o Hapvida, grupo familiar de Fortaleza (CE), cujo lucro líquido de R$ 289,5 milhões em 2014 é o maior do setor. Segundo colocado em lucro operacional e rentabilidade do patrimônio, o grupo projeta crescer 20% em 2015 e encerrar o ano com faturamento de R$ 3 bilhões.

O Hapvida opera por meio de uma rede verticalizada, composta por 209 unidades próprias, sendo 20 hospitais, 70 clínicas, 15 prontos-atendimentos, 55 centros de diagnóstico por imagem e 49 laboratórios, distribuídos em 11 estados. “Somos otimistas porque nosso modelo é resiliente o bastante para continuarmos crescendo, mesmo em período de reajuste econômico”, afirma Jorge Pinheiro, presidente do grupo.

A verticalização da estrutura do Hapvida vai além do atendimento médico. No seu novo hospital, inaugurado em julho, em Manaus, resultado de um investimento de R$ 31 milhões, inclui os serviços de lavanderia, telemarketing e até o desenvolvimento de softwares próprios para a gestão dos 3,2 milhões de usuários e mais de 16 mil funcionários. Outro diferencial do Hapvida é que 93% das internações são feitas nos 20 hospitais da rede própria e 76% dos exames são realizados na rede.

Todos os procedimentos ficam arquivados no sistema, reduzindo o número de pedidos de exames, uma vez que o médico tem acesso ao histórico completo do paciente, desta forma reduzindo a sinistralidade. Outra característica é atuar em regiões com baixo número de pessoas com plano privado de saúde, como o Norte e Nordeste do Brasil, com usuários de todos os níveis de renda, mas predominância das classes B e C e de empresas que vão de dois funcionários até grandes grupos varejistas.

“Ao contrário da elevação dos custos que outras operadoras possam ter, ao adotarmos a verticalização, conseguimos diminuir o número de fornecedores, gerir diretamente a qualidade do serviço e o custo final oferecido aos pacientes, o que permite ter um controle total sobre todos os processos. Somado à escala, conseguimos ter maior capilaridade de mercado e alcançar um universo de brasileiros que antes não tinham acesso à saúde privada”, afirma Pinheiro.

No ranking de seguradoras, a Unimed Saúde registra o segundo maior crescimento (75%) em prêmios ganhos, atrás apenas da Caixa Seguradora. Passou de R$ 1,1 bilhão para R$ 1,9 bilhão. A meta estabelecida para 2015 é manter a carteira de clientes conquistada no ano passado. Atualmente, a seguradora tem aproximadamente três mil clientes, considerados grandes empresas, ele presença nacional. A carteira soma 700 mil vidas.

O que colaborou para o aumento dos prêmios em 2014 foi o avanço da carteira de clientes no segmento empresas de pequeno porte. Muitas delas se uniram e, juntamente com um corretor de seguros, negociaram o plano de saúde e o reajuste em conjunto, como se fosse uma empresa grande. “Passamos a ter 60 mil empresas de pequeno e médio portes como seguradas em 2014 nesse modelo, com o mesmo benefício”, explica Mauri Raphaelli, diretor de negócios da Unimed.

A seguradora vem colocando em prática vários programas junto ao departamento de recursos humanos das empresas. Um dos objetivos é gerenciar a frequência de uso do plano para consultas, patologias crônicas e melhor controle dos hábitos. Os programas também fazem o acompanhamento de gestantes, de controle da obesidade, hipertensão e diabetes, para a melhoria da qualidade de vida dos segurados.

Ao adotar esses programas de prevenção, a Unimed pretende aperfeiçoar o controle dos custos marginais, tais como excesso de utilização de exames, consultas ou ausência de iniciativas de prevenção. “Essa verificação é contínua”, afirma Raphaelli. A meta, explica, é criar um perfil de utilização do plano de saúde que, em vez de penalizar, premie o segurado que busca qualidade de vida. “É uma tendência mundial, mas as experiências ainda são muito incipientes”, diz.

As empresas clientes, segundo Raphaelli, não conseguem mais pagar os custos altos dos planos oferecidos aos colaboradores. “A questão tem de ser trabalhada por todo o setor: seguradoras, médicos, hospitais, empresas e clientes.”

Para promover essa mudança, com foco na promoção da saúde, a seguradora está realizando parcerias com o Sistema Unimed no Brasil, composto por 350 cooperativas locais e regionais, para a criação de modelos que contemplem a prevenção às doenças. Um exemplo é ressaltar a importância do médico de família que pode acompanhar a saúde da pessoa de maneira estruturada, com procedimentos padronizados.

Trata-se de uma reorganização que, além da ação preventiva para melhor saúde, resultará em redução dos custos. A complementação do tratamento hospitalar na casa do beneficiário do plano, quando possível, reduz o custo das internações entre 30% e 40%. Uma equipe faz o atendimento em domicílio, desocupando assim a estrutura hospitalar.

Com resultados que a colocam na liderança do ranking das maiores em patrimônio e lucro líquido, a Bradesco Saúde reformulou sua estrutura de vendas. “O corretor passou a vender todos os tipos de seguro, em diferentes partes do Brasil. Desse modo, a nossa capacidade de vendas foi multiplicada”, afirma o presidente da Bradesco Saúde e da Mediservice, Marcio Coriolano.

Além disso, foram criados novos produtos para pequenas e médias empresas (PMEs), nicho que cresceu na carteira de clientes da Bradesco Seguros nas regiões Sudeste, Nordeste e Norte elo Brasil. “O segmento de grandes empresas, quase na sua totalidade com planos contratados, não oferece tantas oportunidades”, diz Coriolano. Em 2014, a carteira do segmento de PMEs registrou aumento de 21,6% em número de beneficiários. No primeiro trimestre de 2015, o aumento foi de 21,2%, atingindo um total de 955 mil vidas e 107 mil empresas clientes.

O objetivo é manter esse foco ele atuação em 2015 e expandir a atuação em mercados regionais. Coriolano também destaca o esforço na contenção de custos marginais, intensificando a negociação com a cadeia de fornecedores. A Bradesco Saúde e a Mediservice conseguiram economizar 40% na aquisição de órtese, prótese e materiais especiais (OPME), com a colocação direta nos hospitais. A medida foi iniciada em São Paulo e no Rio de janeiro, mas está sendo ampliada para o Brasil inteiro.

Outra medida é a “segunda opinião médica”, em parceria com os hospitais Albert Einstein (SP), Mater Dei (MG) e Casa de Saúde São josé (RJ). Os médicos avaliam a real necessidade de uma intervenção cirúrgica, com ou sem colocação ele prótese. Quando considerada desnecessária, os profissionais indicam aos pacientes eventuais alternativas de tratamento de patologias de coluna vertebral. Mais de 43% dos casos indicados para cirurgia de coluna foram desaconselhados pelo projeto de segunda opinião médica.

Segunda maior empresa do setor, a SulAmérica foi uma das primeiras a reposicionar sua estratégia em relação às novas tendências do mercado. Em 2013, fez parceria com a Healthways, uma das principais provedoras independentes de soluções em saúde e bem-estar do mundo. Por meio da plataforma Saúde Ativa, a seguradora implantou um programa com foco em “coaching de saúde e bem-estar”, disponível para todos os segurados acima de 18 anos.

O objetivo da parceria foi aumentar a capacidade da SulAmérica na prevenção de doenças e, assim, redução dos custos e das altas taxas de indenização. De 2002 para cá, vários programas foram implantados, como, por exemplo, para gravidez de risco, idosos, obesos, doenças crônicas (diabetes, hipertensão, asma), problemas na coluna e casos complexos de
pessoas já internadas em hospitais. No programa de doenças crônicas, a SulAmérica faz o monitoramento constante de 40 mil beneficiários. São pessoas que aceitaram participar da iniciativa e estão totalmente engajadas. O programa deslanchou com mais força nos últimos três anos e já mostra resultados. Segundo Maurício Lopes, vice-presidente de saúde e odonto da SulAmérica, o número de internações caiu 20%.

Cada um dos programas conta com profissionais de várias especialidades, que discutem e recomendam as medidas cabíveis. É definida uma diretriz única para cada pessoa. “Isso gera maior eficiência para o tratamento de cada caso”, explica Lopes. O objetivo é que o paciente seja avaliado de modo integrado.

Com uma história de apenas 15 anos de formação, os planos odontológicos apresentam baixo tíquete de mensalidade e são desejados pela população, ainda pouco coberta pelo produto. Os dois fatores continuam impulsionando o segmento em 2015, cuja tendência é crescer mais que os planos de saúde, principalmente no segmento de empresas de médio e pequeno portes.

A OdontoPrev está entre as operadoras mais bem posicionadas e, por isso, exibe os maiores lucros no setor em 2014. “Nossos resultados têm sido crescentes e positivos, refletindo contínuos ganhos de produtividade e escala, ano após ano”, afirma o presidente da empresa, Mauro Figueiredo. Ele se diz otimista, apesar do quadro macroeconômico desafiador. Figueiredo confia na estrutura de múltiplos canais de vendas da companhia, com os quais busca atender a todos os perfis de clientes, em todo o território nacional.

O presidente da OdontoPrev atribui os resultados consistentes obtidos até agora ao contínuo fluxo de inovações: expansão de negócios com empresas de pequeno e médio portes, vendas on-line de planos individuais anuais, canais bancários exclusivos de distribuição e parcerias com varejistas.

A empresa tem 6,3 milhões de beneficiários, dos quais 81% provenientes de contratos corporativos. Os demais 19%, cerca de 1,2 milhão de vidas, estão relacionados a planos PME e a planos individuais, cujo potencial de crescimento abre uma grande oportunidade futura. Não é de hoje que as operadoras do setor notam que o segmento de PMEs passou a contratar planos, fazendo com que sejam parte da política de retenção dos colaboradores. Segundo Figueiredo, num cenário de menor crescimento da economia, o plano odontológico torna-se um benefício cujo custo final é menor para o consumidor ou para as empresas.

Fonte: Valor Econômico

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *