Atividade econômica recuou 3,9% em 2015, apontam economistas

Fonte: Valor Econômico – 02/03/2016
Por Camilla Veras Mota, Arícia Martins e Tainara Machado
O acidente com a barragem da mineradora Samarco foi a pá de cal sobre qualquer expectativa de um último trimestre menos negativo para a atividade econômica, após um ano de graves problemas políticos e fiscais que devem conduzir o país à recessão mais severa já documentada.

Ao arrastar para baixo a produção industrial no fim de 2015, o desastre em Mariana (MG) foi decisivo para as revisões negativas que levaram os analistas consultados pelo Valor Data a prever encolhimento de 1,6% da economia entre outubro e dezembro, na comparação com os três meses anteriores, feito o ajuste sazonal. De acordo com a média de 23 estimativas, o Produto Interno Bruto (PIB) deve fechar o ano com retração média de 3,9%.

As projeções para o dado do quarto trimestre, que será divulgado amanhã pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) variam de retração de 1,1% a queda de 1,8%, ainda no confronto com o intervalo imediatamente anterior.

Entre os componentes do PIB, os serviços e os investimentos, com quedas previstas de 1,1% e de 6,9%, nessa ordem, terão nos três últimos meses de 2015 o pior trimestre do ano. A indústria, conforme as projeções, deve encolher outros 3,1% no período, fechando o ano com retração de 6,8%, a pior pelo menos desde 1996, quando começa a série do IBGE. O consumo das famílias, acompanhando o processo de deterioração do mercado de trabalho, encolherá 1%, depois de recuar 1,5% no terceiro trimestre.

O desempenho adverso se desdobra também sobre este ano, já que a herança estatística de 2015 deve ser negativa em aproximadamente 2,5%. Assim, estes primeiros três meses, avaliam economistas, devem ser os piores de 2016, com trimestres também negativos, porém mais próximos da estabilidade, até o fim do ano.

O Itaú conta com queda de 1,1% do produto nos primeiros três meses deste ano, em relação ao último trimestre de 2015. Para os períodos seguintes, a instituição espera quedas menores, entre 0,3% e 0,2% ­ uma “estabilidade relativa”, na definição de Felipe Salles, economista da instituição, durante a última apresentação do cenário macroeconômico da instituição. “Ainda haverá queda, mas em outra magnitude”, pondera. Após oito retrações consecutivas, o primeiro resultado positivo, ainda na comparação com o trimestre anterior, viria no primeiro trimestre de 2017, 0,1%.

O cenário da GO Associados é semelhante, com retração de 1,4% do produto no primeiro trimestre de 2016 e PIB ainda estável nos primeiros três meses de 2017. Parte dessa expectativa, para Mariana Orsini, economista da instituição, deve­se à indústria, um dos setores a aliviar no segundo semestre as até então reiteradas contribuições negativas para o produto ­ mais pelo nível já bastante deprimido de produção do que por uma recuperação mais consistente, ela alerta. “Os indicadores de confiança pararam de cair e, por isso, achamos que existe um espaço para que a indústria se estabilize”, ela afirma, destacando que a retomada dos investimentos ainda deve demorar mais para se manifestar.

A surpresa negativa com a produção industrial no quarto trimestre, contudo, foi, na avaliação de Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, um dos principais fatores de deterioração das expectativas para o desempenho da economia no período. No fim do ano passado, a economista já projetava um resultado ruim, com retração de 1,2% da atividade em relação ao terceiro trimestre de 2015, feitos os ajustes sazonais. À medida que os indicadores de atividade do período foram divulgados, porém, sua estimativa migrou para queda de 1,7%, repetindo o resultado observado entre julho e setembro.

O setor, para ela, registrou o pior desempenho do lado da oferta, com variação negativa de 3,6% no último trimestre, na comparação com os três meses imediatamente anteriores, na série dessazonalizada. O rompimento da barragem de rejeitos de mineração da Samarco foi a última “pá de cal”, já que a indústria extrativa era a única com crescimento no acumulado em quatro trimestres e agora deve mostrar forte desaceleração. Nem mesmo o câmbio desvalorizado, que tem contribuído para elevar o volume de manufaturados exportados, é suficiente para compensar o impacto da queda dos investimentos e da demanda privada sobre a produção, afirma Alessandra.

Ela também avalia que o país só deve voltar a crescer em 2017. Para este ano são esperadas contrações médias para o PIB de 0,7% nos primeiros dois trimestres e de 0,2% nos dois posteriores, com retração de 4% no ano fechado. “A confiança segue em níveis historicamente baixos, o cenário externo é complicado, há chance de nenhuma medida fiscal passar pelo Congresso. Em resumo, o balanço de riscos pende para o lado negativo.” Nas contas da Tendências, a Formação Bruta de Capital Fixo (medida das contas nacionais do que se investe em máquinas, equipamentos, construção civil e pesquisa) deve amargar o décimo trimestre consecutivo de queda, com retração de 10,1% sobre o terceiro trimestre de 2015.

“Não tem sinal de reversão, nem em importações, nem na produção de máquinas e equipamentos, nada que aponte que esse processo pode estar perto do fim”, diz Alessandra. Segundo ela, no biênio 2015­ 2016, o investimento deve amargar recuo de quase 30%, o que terá reflexos sobre o potencial de expansão do PIB, mesmo quando a economia sair da recessão. Para Julia Araújo, do banco Fator, a formação de capital fixo também foi afetada pelo desastre em Mariana e pelos problemas da Petrobras no fim de 2015, mas o ambiente econômico incerto segue como entrave preponderante. “As expectativas são muito importantes para o investimento. Se a percepção é que a economia vai demorar mais para se recuperar, você não investe.”

Ainda sob a ótica da demanda, o consumo das famílias também terá desempenho medíocre, com queda de 1% no trimestre e de 3,9% no ano passado, conforme a média de projeções. O mercado de trabalho, lembra Julia, “é o último a entrar e a sair de uma crise”, defasagem que explica a piora mais acentuada do consumo nos últimos três meses de 2015. Em seus cálculos, a demanda das famílias diminuiu 2,3% no período, queda mais forte do que a observada no terceiro trimestre, de 1,5%. A redução do consumo já dura quatro trimestres e deve persistir em 2016, que vai se encerrar com um tombo de 3,3% nesse componente, ela avalia.

O desempenho do PIB só não será pior, pondera Alessandra, por causa do setor externo. A absorção doméstica, que, além dos investimentos e da demanda privada, inclui o consumo do governo, deve ter caído 6,7% no ano passado. A alta de 5,9% das exportações e, principalmente, o recuo de 14% das importações devem levar o setor externo a dar contribuição positiva de 2,8 pontos percentuais em 2015, resultando em queda de 3,9% do PIB no ano passado. Salles, do Itaú, ressalta que as exportações, especialmente as de manufaturados, demoram a reagir a uma eventual desvalorização cambial, “às vezes um, dois anos”. Ao lado da demanda externa ainda fraca e do crescimento moderado de alguns dos principais destinos de produtos brasileiros, essa defasagem ajuda a explicar a estimativa de avanço modesto de 0,4% das exportações no quarto trimestre sobre o terceiro, sempre na série dessazonalizada, e de 6,6% em 2015.

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