Em delação, funcionárias da TM Medical confirmam esquema das próteses

Fonte: Metrópoles – 10/02/2017

Por Lilian Tahan (Com reportagem de Márcia Delgado, Maria Eugênia e Juliana Cavalcante)

O Portal Metrópoles teve acesso em primeira mão às delações feitas por três funcionárias da TM Medical, empresa envolvida na Máfia das Próteses, organização criminosa revelada pela Operação Mr. Hyde em setembro do ano passado. As representantes comerciais Sammer Oliveira Santos, Danielle Beserra de Oliveira e Rosângela Silva de Sousa prestaram depoimento ao Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) e confirmaram o esquema, com combinação de preços, lacres de produtos violados, itens reutilizados, além do de materiais mais baratos.

As delações foram homologadas pela Justiça na quarta-feira (8/2) e revelam detalhes de um esquema que lesou mais de 200 pacientes, deixando sequelas físicas e emocionais para o resto da vida. Participaram das mais de 50 pessoas, entre médicos, enfermeiros, técnicos e vendedores. Estima-se que eles movimentaram mais de R$ 30 milhões.

A técnica em enfermagem Danielle Beserra de Oliveira, 31 anos, afirmou em depoimento que alguns lacres de brocas enviados aos hospitais pela TM eram “frios”, pois os profissionais utilizavam sempre o mesmo selo em produtos diferentes e em diversas cirurgias. Ela disse, ainda, que materiais eram usados por um número ilimitado de vezes, “até quando suportassem”.

A enfermeira Sammer Oliveira contou aos promotores que entrou na TM Medical em janeiro do ano passado. Ela admitiu que por orientação de Micael Bezerra Alves, um dos sócios, havia uma combinação entre empresas para fazer a cotação das órteses, próteses e outros materiais especiais (OPMEs). De acordo com ela, essas empresas eram indicadas apenas para “fazer número”, pois era sempre a TM Medical que “vencia”.

“Já era conhecido, de antemão, que a vencedora seria a TM”, afirmou. Para garantir que isso ocorresse, segundo Sammer, os médicos envolvidos no esquema já sabiam quais empresas indicar para a cotação dos produtos.

O depoimento da técnica em enfermagem Rosângela Silva de Sousa, 46 anos, reforça a existência das fraudes. Ela revelou como funcionava a troca de produtos antes dos procedimentos cirúrgicos. “Muitas vezes, na autorização do convênio, não vem especificação de marca, vem apenas especificação de material. Então fica fácil de utilizar material barato e entregar ao circulante o lacre de um material caro”, afirmou.

De acordo com ela, mesmo que o aceitasse tudo o que havia sido pedido, o procedimento de troca dos lacres sempre ocorria.

Rosângela disse que, nos grupos internos de representantes comerciais da empresa no WhatsApp, do qual participam médicos também, o neurocirurgião Johnny Wesley Gonçalves Martins, apontado como um dos chefes do esquema, fazia perguntas como: “A cirurgia do Dr. Fulano usou o quê?” ou “Usou mais do que devia?”.

As colaboradoras afirmaram que tinham conhecimento e participação nas ações na organização. Em troca das informações, Rosângela e Danielle receberam benefícios como a substituição da pena privativa de liberdade por punição restritiva de direito, ou seja, prestação de serviços a entidades indicadas pelo MPDFT. Sammer Oliveira vai receber perdão judicial em uma das ações, mantendo, entretanto, o pedido de condenação em outra.

Além de Micael, entre os principais nomes citados na delação estão o do médico Johnny Wesley Gonçalves , apontado como líder da Máfia das Próteses e preso até hoje; e de Antônio Márcio Catingueiro Cruz, que de acordo com a polícia atuava fazendo contato comercial entre médicos, e fornecedores de órteses e próteses.

Embora tenha sido alvo de condução coercitiva em uma das fases da operação, o médico José Carlos Daher, do Hospital Daher, não foi citado nos depoimentos.

O esquema
Segundo a investigação dos promotores e dos policiais civis, o grupo usava os procedimentos cirúrgicos para ganhar cada vez mais dinheiro. Entre as 13 pessoas presas na Operação Mister Hyde, estão médicos e representantes de empresas fornecedoras de órteses, próteses e materiais especiais (OPMEs). O esquema teria movimentado milhões de reais em cirurgias, equipamentos e propinas.

Há casos de pacientes que foram submetidos a procedimentos desnecessários, como sucessivas cirurgias, para que gerassem mais lucro aos suspeitos. Em outros, conforme revelado pelas investigações, eram utilizados produtos vencidos e feita a troca de próteses mais caras por outras baratas.

Além dos pacientes, muitos dos quais sofreram sequelas provocadas pelas lesões intencionais, outro alvo do esquema são os planos de saúde, que acabavam pagando mais caro por uma cirurgia que não necessitaria de órteses ou próteses.

A propina geralmente era paga por depósito nas contas dos médicos ou então entregues em espécie nas proximidades dos hospitais onde ocorrem as cirurgias.

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