Taxa de ocupação em leitos da rede privada não subiu com relaxamento

Na cidade de São Paulo, 45% dos leitos para paciente com covid de hospitais particulares estão ocupados

A flexibilização do isolamento social na cidade de São Paulo não provocou até o momento uma alta no volume de internações nos hospitais privados. Atualmente, a taxa de ocupação de leitos voltados a pacientes com ou suspeita do novo coronavírus é de 45%, de acordo com dados do SindHosp, sindicato de hospitais, clínicas e laboratórios de São Paulo.

Segundo especialistas da área da saúde ouvidos pelo Valor, ao contrário do que ocorre no governo federal, em São Paulo há uma coordenação, apoiada por um núcleo técnico-científico, que tem sido importante para controle da pandemia. “Em São Paulo, há uma coordenação, um trabalho baseado em dados. O governador trouxe o prefeito para trabalhar junto no combate à covid-19”, disse Francisco Balestrin, presidente do SindHosp.

Por outro lado, o isolamento social implementado de forma generalizada em todo o Estado é considerado o ponto negativo. “A pandemia chegou forte mais recentemente no interior, mas essas cidades estão fechadas desde março quando havia poucos casos. Isso gerou um descrédito no povo que agora está relaxando antes da hora”, afirmou Balestrin. “A quarentena no interior podia ter começado um pouco depois, maltratou a economia por um longo período e as pessoas têm grande dificuldade em ficar tanto tempo isoladas”, complementou Rogério Melzi, presidente da Hospital Care, holding que tem hospitais em Campinas, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Curitiba, Florianópolis – regiões que, no momento, estão sofrendo com o aumento expressivo de casos da covid-19.

Tanto Melzi quanto Balestrin pontuam, no entanto, que no começo da pandemia era difícil saber como seria o comportamento da doença que se alastrou para o interior de São Paulo, centro-oeste e sul do país numa segunda fase. “Hoje, fica fácil ter essa constatação. Agora, defendo que as medidas de isolamento devem ser o mais customizadas possíveis”, disse o presidente da Hospital Care. Em Campinas e Ribeirão Preto, no interior paulista, o grupo alocou hospitais exclusivos para atendimento dos casos de covid-19. Em Campinas, a taxa de ocupação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) está em 70%, sendo que parte dos pacientes internados e do Sistema Único de Saúde (SUS). “A curva de crescimento é muita rápida. Em Ribeirão Preto, há cinco semanas tínhamos 20% dos leitos de UTI ocupados e hoje já estamos em 90%, disse Melzi.

Já na capital paulista, onde foram registrados os primeiros casos do novo coronavírus, a taxa de ocupação nos hospitais está estabilizada mesmo com a flexibilização da quarentena, iniciada há cerca de um mês, com a abertura parcial do varejo e mais recentemente dos restaurantes, bares e parques.

“No início do relaxamento, a ocupação de leitos caiu no Einstein e agora está estável”, disse Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ele contou que esse movimento também foi percebido na rede pública e nos hospitais de campanha que estão sob sua administração. “Optamos por redirecionar os recursos dos hospitais de campanha à rede pública da prefeitura que está registrando outros tipos de doenças”, disse Klajner. Durante a pandemia, muitas pessoas tiveram que interromper seus tratamentos médicos e agora vem apresentando complicações.

Segundo Klajner, outro fator que pode estar contribuindo para esse cenário controlado de leitos é que o quadro de saúde dos pacientes que estão chegando agora aos hospitais é menos grave quando comparado ao início da pandemia. Assim, o tempo de internação tem sido menor e, consequentemente, os leitos são liberados mais rapidamente.

No entanto, essa estabilidade na taxa de ocupação dos leitos privados não significa que os riscos estão descartados. Para Celso Granato, infectologista e diretor clínico do Fleury, há chances de ocorrer uma segunda onda com o retorno das atividades. “A contaminação pode ocorrer, principalmente, no transporte público”, disse Granato, que participa do programa de testagem da população da cidade de São Paulo, em parceria com o Ibope. Na primeira fase do programa, o estudo mostrou que de 152 residências visitadas para realização dos testes de covid, em apenas duas havia ocorrido uma contaminação dentro de casa. “Em outros países, também houve contaminação no transporte público. Afeta as pessoas mais pobres que não têm condições para ter um carro particular”, disse. O infectologista defende que o governo adote medidas como a ampliação da frota de ônibus.

“Não é o melhor momento do mundo para retornar às atividades, mas também entendo a questão econômica. Então, acredito que o relaxamento está razoável”, disse Granato. “Mas é necessário que as pessoas usem máscara, álcool em gel, entre outras medidas de segurança”, alertou o infectologista.

Fonte: Valor Econômico – 15/07/2020
Por Beth Koike

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