Questão de saúde geral

Fonte: Revista Apólice – 02/10/2017
 
Conhecido pelo grande número de dentistas em exercício, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer quando o assunto é proteger sua população contra os perigos da falta de higiene bucal
 
Por Amanda Cruz
 
O Brasil abriga 11% dos dentistas do mundo, de acordo com o Atlas Mundial de Odontologia de 2015. Isso representa mais de 280 mil profissionais em atividade, tornando-o o maior mercado do globo. Para melhor exemplificar, existe no País um dentista para cada 715 habitantes. Profissionais que estão, de acordo com relatório da ONU, entre os melhores do mundo. 70% deles estão concentrados no Sul e Sudeste do País, o que leva ao outro lado dos dados.
 
Segundo a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios de 2015, 11,7% dos brasileiros nunca estiveram em um dentista. Isso equivale a 24 milhões de pessoas que nunca obtiveram cuidado com a saúde bucal; sendo as regiões Norte e Nordeste as mais prejudicadas. “Os levantamentos epidemiológicos conduzidos pelo Ministério da Saúde em 2003 e 2010 apresentam melhorias no quadro de saúde bucal de crianças, adolescentes e adultos. Entretanto, persistem as grandes desigualdades de natureza regional vinculadas a critérios sociais”, resume o Dr. Marco Antonio Manfredini, secretário do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (Crosp). Por conta dessa discrepância, acentuada pela falta de capacidade do sistema público em atender as demandas odontológicas e os altos valores do atendimento particular, o sistema de planos privados vem avançando e dando autonomia especial aos odontológicos. Se antes eles eram um complemento do plano médico, hoje são encarados – especialmente por aqueles que já possuem cultura de prevenção – como uma alternativa de manter o acesso a esse cuidado.
 
“A relevância que os planos odontológicos ganharam pode ser constatada pelo comportamento da carteira, que cresceu no mercado na contramão da assistência médica”, afirma o diretor-executivo da Amil Dental, Alfieri Casalecchi. O executivo percebe ainda que o perfil daqueles que mais procuram pelo benefício são as mulheres com idade entre 25 e 40 anos. Já a faixa mais consolidada de beneficiários hoje é a que vai dos 30 aos 39 anos: dos 22 milhões de brasileiros que possuem algum tipo de plano dental, essa é a faixa com maior número de vidas, de acordo com dados de março de 2017 da ANS. Na Odontoprev, o superintendente de Operações, Marcos José da Silva Costa, também trata a faixa etária como o principal destaque da carteira. Entre 12 e 19anos, os jovens são mais suscetíveis às cáries, precisando mais do atendimento; as questões regionais também aparecem como fator, já que delas dependem a possibilidade de acesso aos tratamentos necessários e há também o fator sócio-cultural: quanto maior a educação, mais presente se torna a preocupação com a saúde bucal. Para além desses recortes, de maneira geral, pais e responsáveis preocupados com a saúde de seus dependentes estão entre aqueles que têm mais preocupação com a contratação de um plano que atenda a toda família. Além disso, as PME’s são outro grupo de destaque, oferecendo o plano odontológico como diferencial de mercado a seus funcionários.
 
Os planos odontológicos se consolidaram como instrumento de acesso a tratamentos e estímulo à promoção da saúde bucal e prevenção de doenças. O fato de muitas pessoas terem acesso aos planos médicos, mas não terem o odontológico, favorece a expansão do segmento, conforme lembra Geraldo Almeida Lima, presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Odontologia de Grupo (Sinog): “Considerando que apenas 11,4% da população brasileira possuem algum tipo de plano odontológico e a existência de um gap a conquistar de mais de 25 milhões de beneficiários que possuem apenas planos médico-hospitalares, este segmento pode crescer muito mais”, comemora.
 
Uma das dificuldades enfrentadas no Brasil é o descuido com a prevenção. As pessoas de fato utilizam o serviço de dentistas quando precisam, mas ainda é pequeno o interesse por medidas preventivas. “No Brasil, culturalmente, grande parte da população ainda mantém a prevalência de ir ao dentista apenas para fazer os tratamentos curativos, ou seja, quando o problema bucal surge, se agrava e é preciso o tratamento”, lamenta Lima. A Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo IBGE em 2013, mostrou que 55,6% dos brasileiros não se consultam com dentistas anualmente. “Essa reversão de valores é extremamente necessária para que todos tenham em vista que é preciso fazer, primeiramente, a prevenção de doenças para que haja a adequada saúde bucal”, completa.
 
Costa, da Odontoprev, reafirma a falta de visão de futuro das pessoas quando o assunto é saúde bucal e, às vezes, o desconhecimento da importância desse cuidado na saúde geral do organismo. Por outro lado, comemora os avanços, que são inegáveis, na descoberta dos planos odontológicos como benefício, agora ocupando o terceiro lugar na lista de desejos dos funcionários. “Essa não é e não necessita ser uma carteira atrelada ao plano médico, mas deve, obrigatoriamente, ser entendido dentro de um conceito completo de plano de saúde. Assim, o indivíduo pode dizer que tem um plano de saúde quando tem o plano médico-hospitalar e também o odontológico”, explica.
 
Quem entra na carteira de maneira geral, segundo as operadoras entrevistadas, se sente satisfeito, mas não deixa de procurar por novidades e diferenciais para manter o plano. “Cada vez mais, nossos clientes buscam procedimentos ligados à prevenção, mas, além disso, em pesquisas de opinião realizadas com nossos beneficiários, notamos uma demanda por coberturas estéticas”, sinaliza Casalecchi, da Amil. Tanto é que o Conselho Federal de Odontologia autorizou, em novembro de 2016, a aplicação de botox para fins estéticos por cirurgiões dentistas. Antes dessa data, esses profissionais já utilizavam a substância, mas apenas para tratar de algumas desordens funcionais, como o bruxismo. Embora nem todas as operadoras tenham aderido à modalidade, esse é um indicativo do que os clientes mais maduros poderão exigir de suas operadoras no futuro.
 
Mas, antes do futuro, a realidade: levar saúde bucal a quem não tem e diminuir a incidência de doenças associadas à precariedade de higiene bucal. “Os planos odontológicos são um forte aliado para que a população tenha acesso aos tratamentos preventivos e de profilaxia, além de todos os outros relacionados na cobertura mínima e que garantem a manutenção da saúde bucal. Os planos odontológicos, inclusive, suprem uma grande demanda dos brasileiros que não têm acesso aos consultórios particulares”, exemplifica Lima.
 
Principais doenças associadas
 
As cáries dentais representam a maior doença causada por falta de higiene bucal, considerada pelo Atlas Mundial a maior doença crônica generalizada ao redor do mundo e o maior desafio de saúde global. Ainda que sejam mais comuns em crianças, os adultos também sofrem com as cáries: um em cada três adultos no Brasil têm cáries que não são tratadas e lavam à queda dos dentes. Aos 12 anos, 53% apresentam cáries e esse índice pode atingir perto de 75% da população com idade entre 15 e 19 anos. Já a doença periodontal (infecção de gengiva) é crescente quanto maior a faixa etária. No Brasil, 37% da popula- ção na faixa dos 12 anos já apresentam a doença; esse percentual cresce para 49% da população com idade entre 5 e 19 anos e já atingiu 82% da população com idade entre 35 e 44 anos. Ente 65 e 74 anos, 98% da população já apresentou periodontite.
 
Açúcar, cigarro, álcool, dieta inadequada entre outros fatores podem ser considerados os principais responsáveis por esse problema. Além da perda dos dentes, a falta de cuidado com a saúde bucal pode levar ao desenvolvimento de doenças de diferentes gravidades – desde uma gengivite até a endocardite bacteriana – infecção que afeta o coração e pode ser fatal, geralmente causada por acúmulo de bactérias em feridas e sangramentos presentes na boca que abrem espaço para a contaminação. “Lamentavelmente, apopulação ainda não tem conhecimento sobre a real necessidade da prevenção da saúde bucal e sua importância na saúde geral de seu organismo. Não imaginam, por exemplo, que dores posturais, com sintomatologia na região da coluna cervical ou cefaleias (dores de cabeça) podem ser consequências da perda precoce de parte de seus dentes. Desconhecem as implicações de doenças bucais da mãe na gestação de seu bebê, que podem levar ao parto prematuro, por exemplo, ou a possibilidade de infecções bucais atingirem com gravidade estruturas do coração”, relaciona Costa, da Odontoprev. Assim, não tem a motivação suficiente para priorizar atitudes de prevenção. Há pesquisas que indicam que perto de 90% dos brasileiros acreditam ser importante ir ao dentista, mas os que utilizam regularmente fio dental, escova e pasta de dente na higienização são, apenas, 53% dos brasileiros.
 
Para ganhar espaço
 
Há três profissionais intimamente envolvidos na cadeia dos planos. Segurador, corretores e profissionais de odontologia. Na outra ponta estão os consumidores, muitos deles empresas que usam as vantagens do mercado para oferecer o benefício do plano. Assim, os que podem e conhecem, procuram as carteiras odontológicas por consciência e aqueles que não têm como arcar com os valores de uma consulta e tratamento particular, podem ser apresentados a esse benefício.
 
Para atrair esses dois públicos a diversificação é uma saída. A Amil, por exemplo, tem investido em nichos como os voltado para crianças, regiões específicas do País disponíveis para clientes individuais e PME’s, conforme as necessidades. Há ainda um nicho voltado apenas para o público de alta renda. “Pretendemos dar continuidade à estratégia de investir na comercialização de planos individuais e para pequenas e médias empresas (PMEs), que nos possibilitaram manter a estabilidade da nossa carteira de clientes nos últimos quatro anos, quando as grandes companhias foram afetadas pela crise econômica”, destaca Casalecchi.
 
A aceitação nas empresas é grande e, com seu valor muito abaixo do plano médico-hospitalar, a percepção da sua importância aumenta muito. Para cuidar da prevenção, a Odontoprev exemplifica que o seu posicionamento começa com a realização de ações de promoção da saúde dentro de empresas e instituições, com materiais para difundir a prevenção e manutenção quando o assunto é saúde bucal.
 
Para que tudo funcione, o esforço financeiro também é preciso e o porta-voz do Crosp, Dr. Marco Antonio Manfredini, diz que o conselho acompanha de perto o desenvolvimentos dos planos e os vê com bons olhos, mas faz uma ressalva: “entendemos que essa expansão deve estar associada a uma remuneração adequada dos cirurgiões-dentistas e prestadores de serviços”, pontua. Manfredini também alerta os beneficiários – que tenham ou não planos odontológicos: “é importante ressaltar que as pessoas devem, sempre, se certificar que o profissional está habilitado no Conselho Regional de Odontologia e, no caso de especialistas, que tenha esse título comprovado”, aconselha. Esse é outro ponto no qual os planos têm vantagem sobre a busca particular: a curadoria realizada com os profissionais das redes de atendimento.
 
O plano de saúde odontológico se apresenta, portanto, como uma das carteiras com grande potencial de expansão para o corretor de seguros. Uma das vantagens que ela oferece é que é possível uma especialização não tão complexa quanto em outras carteiras, mas efetiva e que possa ajudar o profissional a conquistar.
 
Então, o que falta para a carteira ser muito maior? Para Geraldo Lima, presidente do Sinog, alguns pontos tanto da regulação da carteira que dependem da decisão da ANS – quanto de iniciativas de dentro do setor precisam de ajustes, reduzindo custos desnecessários Debater, discutir, falar, indicar e, principalmente, mostrar os riscos do descuido com a higiene bucal. Para além das questões estéticas que podem, sim, fazer parte dos cuidados dos planos odontológicos, a saúde fala mais alto e clama por prevenção e cuidados, desempenhando o papel último dos seguros e planos médicos: cuidar da população.

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