Muitas felicidades, muitos anos de vida

Fonte: Valor Econômico – 01/09/2017
 
Por Marcus Lopes
 
Em 2050, o Brasil terá a quarta maior população idosa do mundo, mas a longevidade ainda não se tornou uma questão de grande interesse público no país. A opinião é do diretor-executivo do Instituto de Longevidade Mongeral Aegon, Henrique Noya. A entidade sem fins lucrativos, em parceria com a Fundação Getulio Vargas, elabora o Índice de Desenvolvimento Urbano para Longevidade (IDL).
 
Valor: Estudos do IBGE mostram que, até 2050, a população brasileira com mais de 60 anos deve triplicar e chegar a cerca de 29% do total de habitantes. As cidades brasileiras estão preparadas para essa transformação?
 
Henrique Noya: Em 2050, o Brasil terá a quarta maior população idosa do mundo, atrás apenas de EUA, Índia e China. Apesar disso, a longevidade ainda não se tornou uma questão de grande interesse público por aqui. A falta de atenção à eminente mudança demográfica é evidenciada na falha dos governos em implementar as políticas estabelecidas, desde a década de 80, para proteger os direitos e interesses dos cidadãos idosos. É verdade que alguns passos importantes foram dados em muitas cidades, sobretudo para melhorar a acessibilidade nos transportes e nas habitações, e prevenir os maustratos aos idosos, mas o ritmo lento de execução continua sendo um problema.
 
Valor: Quais os maiores problemas enfrentados pelos idosos no meio urbano?
 
Noya: Os brasileiros buscam manter a independência ao longo de suas vidas. Nesse sentido, especificamente no meio urbano, destacam-se problemas relacionados à ausência de transporte de qualidade e à falta de espaços de lazer que proporcionem segurança e acolhimento.
 
Valor: Como as cidades devem reverter esses problemas e se preparar para garantir o bem-estar da população idosa nos próximos anos?
 
Noya: As cidades serão mais atrativas para todos, e mais competitivas para novos investimentos, ao buscarem promover o bem-estar para a população idosa. Ou seja, viabilizar ações claras voltadas para a longevidade com mais qualidade de vida para as suas comunidades.
 
Valor: Saúde e assistência social devem ser prioridades, mas qual a importância de outras políticas públicas, como o lazer, que o senhor citou, para garantir o bem-estar dos mais idosos nas cidades?
 
Noya: A população brasileira hoje, na média, envelhece com mais saúde física e intelectual. Possui também mais renda e está cada vez mais conectada na internet, sobretudo nas redes sociais. Esse novo perfil exige que olhemos para esse segmento com um novo padrão de demandas
 
Valor: Quais são essas novas demandas?
 
Noya: Certamente a saúde e assistência social não devem ser desprezadas por nossas autoridades municipais, mas devem entrar também na agenda da promoção do bem-estar, isto é, da longevidade com qualidade de vida, o desenvolvimento da oferta de educação, requalificação profissional, da mobilidade e segurança e, claro, mais opções de cultura e lazer.
 
Valor: A locomoção é um dos grandes problemas enfrentados pela população idosa. Os problemas vão desde calçadas inadequadas até degraus altos no acesso aos ônibus. Como combater esse problema de mobilidade urbana para a terceira idade?
 
Noya: O desafio da longevidade é global e também um campo vasto para desenvolvimento de ideias para tornarmos as cidades mais inclusivas e solidárias. A questão da mobilidade é um bom exemplo desse poder. Veja só o que foi feito em um bairro de Cingapura. Para atender idosos que vão passear pelo bairro de Yishun, foram adaptados os semáforos. Eles são capazes de ler um cartão especial entregue a quem tem mais de 65 anos de idade e que faz com que o tempo de travessia na faixa de pedestres aumente por até 13 segundos. Há ainda a divisão da pista, para que a pessoa consiga ter uma área de descanso ao atravessar a rua, e a sinalização de que a área é uma Silver Zone [zona prateada], com concentração de pessoas com mais de 60 anos.
 
Valor: O Índice de Desenvolvimento Urbano para Longevidade aponta diversas cidades com mais de 500 mil habitantes como bons locais para os idosos viverem. Diante disso é necessário reavaliar o conceito de que apenas as cidades menores são boas para os idosos, por serem consideradas mais tranquilas?
 
Noya: Todas as cidades, independentemente do tamanho, apresentam pontos positivos e negativos para a vida dos idosos. O novo idoso quer mais do que tranquilidade. Ele quer acesso a serviços e produtos, desenvolver novas habilidades e quer trabalhar também. Enfim, exercer seu direito à vida plena.
 
Valor: Em cidades como São Paulo começam a surgir lançamentos imobiliários destinados à população idosa. O aumento dessa população deve provocar grandes mudanças no desenho urbano?
 
Noya: Sem dúvida. E até mesmo sob o ponto de vista de mercado, considerando o crescimento do segmento e melhor poder aquisitivo, é inteligente pensar já na população idosa e seus desejos pouco ou mal atendidos. Os lançamentos imobiliários certamente trazem para regiões designadas esse contingente de pessoas que vão buscar mais serviços e produtos, sejam de saúde, de educação, ou de lazer e cultura. Portanto, são multiplicadores de desenvolvimento econômico e qualidade de vida por onde venham a se instalar e requerem do espaço urbano a transformação na infraestrutura necessária a esses desenvolvimentos.
 
Valor: E as cidades pequenas e com menos recursos públicos? Como elas devem se preparar para atender ao aumento da população idosa?
 
Noya: A transformação demográfica que já vivemos – isto é, o fato de que viveremos todos muito mais e que já temos todos menos filhos, exige de nossos gestores públicos um posicionamento de vanguarda com a questão da longevidade. É preciso, quando necessário, procurar parcerias com a iniciativa privada e com as populações que vivem nas cidades para debater os problemas e agir com mais eficiência sobre eles.

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