Estudos sobre a terceira idade apontam que Brasil chegará à velhice mais pobre e menos saudável

Somos um país caminhando rapidamente e miseravelmente para a velhice. Os países desenvolvidos enriqueceram antes de envelhecer. Nós vamos chegar à “melhor idade” na pobreza. Ninguém está preparado para isso. Nem os governos, nem as famílias e nem as pessoas individualmente. Portanto, a imagem do idoso bem de vida, saudável, correndo no calçadão de Copacabana (Rio), representará bem poucos.

Segundo o IBGE, metade dos brasileiros ganham menos que um salário mínimo. Ainda que o rendimento vindo das aposentadorias e pensões seja um pouco mais elevado (R$ 1.670, em média), é muito pouco quando se leva em conta os custos envolvidos no envelhecer (com remédios, por exemplo).

Estamos envelhecendo em piores condições de saúde. Um estudo da USP feito em São Paulo mostrou que, em dez anos, a taxa de incapacidade por doenças na capital cresceu 78,5% entre os homens e 39,2% entre as mulheres acima de 60 anos. Entre 2000 e 2010, essa população ganhou, em média, dois anos a mais de expectativa de vida, mas perdeu até três de vida saudável.

A boa notícia é que, pelo menos em alguns aspectos da saúde, é possível mudar esse quadro. Se a hipertensão e o diabetes fossem controlados, por exemplo, os homens ganhariam até seis anos de expectativa de vida livre de incapacidade, segundo projeções de um outro estudo da USP. Doenças mentais, articulares e as quedas são outros fatores importantes de incapacidade. Juntas elas respondem por quase 70% da carga de enfermidades dos idosos.

São necessárias políticas efetivas voltadas para a prevenção dessas incapacidades. No SUS, os gastos com o envelhecimento poderão atingir R$ 115 bilhões por ano em 2030 –hoje estão em torno de R$ 45 bilhões anuais. Atualmente, 70% dos idosos dependem exclusivamente do sistema público.

O setor privado começa a investir em programas com objetivo de diminuir o impacto do custo dessas doenças. Estudo do IESS (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar) aponta que o envelhecimento elevará o total de internações de beneficiários em mais de 30% até 2030. Hoje, 12,5% dos cerca de 50 milhões de usuários de planos têm 60 anos ou mais. Quase 90% sofrem de algum tipo de doença crônica, como diabetes, artroses e câncer.

Os cuidados em casa são outro ponto crítico. Aquela sociedade de famílias com muitos filhos, em que as mulheres não trabalhavam e estavam disponíveis para cuidar dos idosos, não existe mais. Também não há dinheiro sobrando para pagar um cuidador profissional.

Por fim, nunca é demais lembrar que a forma como vamos envelhecer é, em grande parte, resultado das nossas escolhas. Mudanças de hábito, como deixar o tabagismo, optar por uma alimentação mais saudável, fazer atividade física e manter vínculos sociais, serão ativos fundamentais para um envelhecimento com mais qualidade.

Por Claudia Collucci

Fonte: Folha de S. Paulo – 20/05/2018

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