‘Estresse é contagioso’, diz especialista em Saúde Corporativa.

Gilberto Ururahy lança o livro “Emoções e saúde” nesta quinta-feira, em Copacabana.
Por Clarissa Pains
Diretor da Med-Rio Check-up e especialista em Medicina Preventiva e Saúde Corporativa, Gilberto Ururahy lança, na quinta-feira, no Hotel Sofitel, em Copacabana, o livro “Emoções e saúde”, que destrincha os males que afetam o homem moderno.
Cerca de 80% das consultas médicas no mundo são motivadas por estresse, dizem estudos de Harvard. Que problemas isso traz?
É importante diferenciar o estresse agudo, que é uma defesa do nosso corpo, do estresse crônico. Se você sente que está sendo seguido por alguém, você aperta o passo, atravessa a rua. Nesse momento, o seu corpo gera uma série de reações: os brônquios se dilatam para você receber mais oxigênio, as pupilas se dilatam para você enxergar melhor, a glicose se concentra nos músculos. É perfeitamente normal que isso aconteça de tempos em tempos. O que preocupa é o estresse crônico, acumulado ao longo do tempo, porque aumenta no nosso corpo os níveis dos hormônios cortisol e adrenalina. O primeiro causa queda da imunidade e aumento de peso e de resistência à insulina. Já a adrenalina propicia o aumento da pressão arterial e de arritmias cardíacas. Não raro, pessoas com 35 anos têm infarto do miocárdio. Às vezes, executivos trabalham de dia e de noite, tomam muito café, ficam sedentários, dormem mal. É esse ciclo perverso que precisa ser rompido.
Há muitos efeitos físicos, mas também psicológicos, certo?
Sim, o principal deles é a depressão, quando a pessoa não consegue projetar o futuro. Um dos grandes avanços da psiquiatria moderna foi associar os altos níveis de colesterol à depressão. Do ano passado para cá, nas consultas da Med-Rio, aumentou o número de pacientes com depressão (de 8% para 11%) e com ansiedade (de 20% para 32%).
E como tratar a depressão?
Na maioria dos casos, é possível tratar o problema sem remédios, só com atividade física regular. A endorfina liberada pelo exercício atenua os efeitos do cortisol, melhora a qualidade do sono, a libido, a sensação de bem-estar. Simples mudanças no dia a dia ajudam a evitar o estresse do cotidiano e, como consequência, a depressão. Algumas dessas mudanças são caminhar sob a luz do sol, ter apoio familiar, manter conversar frequentes com amigos.
O senhor cita a falta de motivação como uma importante causa de estresse. Os adultos de hoje estão menos motivados do que seus avós?
Hoje, as pessoas estão mais informadas sobre a importância de uma alimentação equilibrada, da atividade física regular e os efeitos nefastos da nicotina, mas, mesmo assim, observamos que o estresse não diminuiu. O estresse nada mais é do que a reação do indivíduo à necessidade de se adaptar a mudanças. Em um mundo com mudanças cada vez mais rápidas e frequentes, o estresse está muito presente. Ele é democrático, cumulativo e contagioso. Pessoas estressadas deixam assim as que estão ao redor. E a tendência é que isso só aumente. Hoje, 25% dos meus pacientes sofrem de insônia. No mesmo período do ano passado, eram 21%. Com a fragilidade política e econômica, a recessão, o desemprego, o aumento da violência urbana, as pessoas estão sofrendo mais, e isso se reflete no corpo.
E o estresse tem disparado entre as mulheres?
Em 1990, para cada nove infartos, um ocorria em mulher. Hoje, são um em cada três. E em mulheres cada vez mais jovens. Antes, acreditava-se que elas eram protegidas das doenças coronarianas até a menopausa, graças aos hormônios sexuais. Mas isso é balela. Como dizia Darwin, somos produtos do nosso meio. Hoje, 35% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. Elas cuidam da casa, do trabalho, do MBA. Logo, assim como o homem, a mulher se tornou presa fácil para o estresse do cotidiano. Só que a grande maioria não se dá conta que tem estresse. Na nossa base de cem mil exames de check-up, 70% dos indivíduos têm o problema.
Em seu livro, o senhor fala de um novo conceito, que vem ganhando força mundialmente, o “Wellness coaching”. Como funciona?
O Wellness coaching é um conceito criado nos EUA, em que o médico trabalha em conjunto com especialistas que são coachs dos pacientes. Eles ajudam os indivíduos a terem motivação e a seguirem o programa de saúde elaborado pelo médico. Eu conheci esse programa quando, há três anos, fui a uma clínica no estado de Ohio levar um paciente para operar o coração e vi que os coachs participavam do pós check-up. Estudos de Harvard mostram que só uma em cada sete pessoas consegue mudar seu estilo de vida sozinha. É por isso que é tão importante ter o acompanhamento de alguém que possa lhe ajudar a fazer isso.
O senhor percebeu aumento nos casos de síndrome do pânico?
Sim, o pânico é o topo da ansiedade. Se indivíduos predispostos geneticamente à síndrome do pânico abusam da cafeína, da nicotina e de noites mal dormidas, preocupações intensas acabam desencadeando a doença. Ela também é chamada de síndrome da morte iminente, porque é essa sensação que os pacientes têm quando passam por crises. O que os terapeutas fazem é tornar esses momentos mais esparsos, mas não há cura.
No livro, há destaque ainda para o fato de o suicídio ser também uma questão das empresas. Como assim?
Há dois anos, meu parceiro coautor do livro, Éric Albert, foi consultor de empresas francesas que registraram grande aumento nos suicídios entre os funcionários. Mudanças aceleradas, fusões, transferências de equipes e ondas de demissões trazem estresse corporativo. E o ambiente de trabalho é onde o indivíduo passa a maior parte de sua vida. É responsabilidade das empresas tornarem o lugar de trabalho um ambiente de bem-estar.
Fonte: O Globo – 17/11/2015

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