Pouca margem de manobra

Combate às fraudes e programas de prevenção a doenças ajudam a reduzir os custos

Abalado com a perda de mais de 3 milhões de beneficiários nos últimos anos por conta da crise econômica, o setor de saúde suplementar estima fechar 2018 com 47,5 milhões de usuários de planos médico-hospitalares e conquistar 379 mil novos associados de março a dezembro. A previsão é da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), cuja projeção para 2019 é alcançar um crescimento de 1,5% e ampliar para 48,2 milhões o número de beneficiários. Para 2020, a entidade prevê um avanço de 1,3%, com um total de 48,9 milhões de usuários.

“O cenário conservador reflete as atuais incertezas no campo político e econômico, o baixo nível de investimento no país e a piora na perspectiva do mercado de trabalho”, observa Reinaldo Scheibe, presidente da entidade. Ele explica que as margens de rentabilidade do setor costumam ser baixas porque os custos sobem mais do que as receitas. Por isso, segundo o executivo, a margem líquida das operadoras não ultrapassa a faixa dos 5% desde 2013. Os dados que Scheibe exibe para comprovar o que diz mostram uma elevação de 118,7% nas despesas assistenciais, entre 2011 e 2017, ante uma alta de 112,5% na receita de contraprestações. Empenhadas em reduzir custos, fidelizar e conquistar clientes, as operadoras reforçam o combate às fraudes e estimulam a adesão a programas de promoção de saúde e prevenção de doenças, com foco na atenção básica. Outra iniciativa é apostar na verticalização, na tecnologia e em novos modelos de remuneração aos prestadores de serviço.

Maior empresa do setor, a Amil encerrou 2017 com cerca de 6 milhões de clientes em planos médicos e odontológicos, uma queda de 3% em relação a 2016. “O recuo foi reflexo do cenário econômico desfavorável que atingiu todo o setor”, avalia o CEO Sérgio Ricardo Santos. Mesmo assim, o faturamento consolidado de 2017 foi 16% maior que em 2016 e o resultado líquido consolidado somou R$ 54 milhões.

Em 2018, a carteira permanece estável. No primeiro semestre, registrou cerca de 4 milhões de clientes com cobertura médica e 2 milhões em serviços odontológicos. Quase 20% dos planos são individuais ou familiares. Para minimizar a alta dos custos, a Amil age em várias frentes: combate a fraudes, abusos, erros e desperdícios, novos modelos de remuneração a prestadores de serviço e atenção primária. Além de novas unidades, a empresa inaugurou no ano passado um espaço de 2 mil metros quadrados, em São Paulo, com capacidade para realizar mais de 30 mil consultas por mês. O empreendimento faz parte da estratégia de priorizar o acompanhamento de pacientes por equipes de saúde lideradas por médicos de família.

Em outra frente, a empresa tem conseguido reduzir o tempo médio de internação hospitalar e a mortalidade dos pacientes por meio de uma ferramenta on-line. Ela permite que médicos da operadora e da rede credenciada compartilhem com outras equipes médico-hospitalares as melhores diretrizes clínicas baseadas em evidências científicas. Para os clientes, um aplicativo para smartphones e tablets permite o agendamento de consultas e exames on-line, busca de rede credenciada e o acesso à carteirinha virtual.

No portal da empresa, os clientes ainda contam com um simulador de coparticipação – a modalidade está no centro de um debate jurídico depois que a Agência Nacional de Saúde (ANS) anunciou novas regras. De acordo com Santos, opções com faixas mais amplas de coparticipação podem reduzir consideravelmente o preço dos planos. Para ele, são alternativas interessantes para clientes com baixa perspectiva imediata de utilização.

O Grupo NotreDame Intermédica (GND1), que realizou sua oferta pública inicial (IPO) de ações na Bolsa paulista, em abril passado, mostrou, em sua primeira divulgação de resultados, um crescimento de 18% na receita líquida no primeiro trimestre de 2018 sobre o mesmo período do ano passado. “Por sermos uma empresa de capital aberto, não falamos de projeções, mas as expectativas são boas. Queremos dar continuidade à estratégia até aqui adotada, com investimentos e expansão da rede própria”, destaca o presidente do grupo, lrlau Machado Filho.

Concentrado em clientes corporativos – representam 90% da carteira -, o NotreDame Intermédica registrou crescimento de 3,3 milhões para 3,6 milhões de beneficiários no primeiro trimestre de 2018 sobre os primeiros três meses do ano passado. O número considera planos de saúde, que aumentaram em 3,1%, e o segmento dental, com alta de 18,5%. Em 2017, fechou com aproximadamente 3,6 milhões de associados de planos de assistência à saúde e planos odontológicos. O número é superior ao de 2016, que foi de 3,2 milhões.

De acordo com Machado Filho, os investimentos em reformas de hospitais e centros clínicos, inaugurações de novas unidades, aquisições, reposicionamento da marca e mudanças na estratégia comercial resultaram em um crescimento sustentável nos últimos anos. Os esforços comerciais incluíram uma nova grade de produtos e o estreitamento do relacionamento com os mais de 10 mil corretores, o que permitiu maior capilaridade com o nicho de pequenas e médias empresas, entre outros. A oferta de planos odontológicos a clientes que já possuíam planos de saúde ajudou a alavancar os primeiros.

Em junho passado, o GNDI adquiriu o Grupo Samed e, no mês seguinte, o Grupo Mediplan Sorocaba, ambos do interior paulista. Três hospitais comprados no ABC paulista, além do Cruzeiro do Sul, em Osasco – cuja aquisição foi concluída em fevereiro passado -, passam por reformas.

Outra operadora que vem crescendo apesar da crise é a Unimed-BH, presente em 34 municípios da região metropolitana de Belo Horizonte. Em 2016 e 2017, houve aumento de 11 mil e 15 mil clientes na carteira, respectivamente. A empresa fechou o ano passado com 1,24 milhão de usuários e concluiu o primeiro semestre de 2018 com um número maior: 1,26 milhão. Segundo o diretor-presidente Samuel Flam, o cenário ainda tímido da retomada do emprego dificulta a expansão da carteira – que tem cerca de 80% de planos empresariais/coletivos e 20% individuais -, mas as perspectivas são positivas.

A Unimed-BH, diz o executivo, vem estimulando o vínculo entre o paciente e o seu médico cooperado de referência e investindo em ações de prevenção. Também tem apostado em tecnologia, como e-commerce de planos, agendamento on-line e o consultório online, no qual médicos pedem exames e procedimentos, e inovado em modelos de remuneração.

Um exemplo é o índice de Qualidade Assistencial, que aumenta a remuneração aos médicos cooperados desde que as metas de qualidade sejam atingidas. Outro é o Selo de Excelência Assistencial, que estimula a rede própria e credenciada a buscar excelência: a melhor prática ganha um adicional no faturamento. As medidas contribuíram com a melhora da sinistralidade, que teve redução de aproximadamente dois pontos percentuais nos últimos três anos, diz Flam.

A Unimed-BH também amplia a rede própria. No ano que vem, inaugura um hospital em Betim, com aportes de R$ 200 milhões. No início de 2018, abriu uma unidade ambulatorial em Belo Horizonte e, no ano passado, assumiu a gestão do Hospital Infantil São Camilo. Também vem adotando compra compartilhada com o Sistema Unimed estadual e criou uma Central Logística para melhor gerenciar despesas.

Empresa regional, consolidada em Santa Catarina, a Agemed, estendeu sua atuação para mais cidades do Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e no Distrito Federal. Focada em planos corporativos, chegou a mais de 350 mil beneficiários em meados de 2018, mantendo o ritmo de expansão elevado: eram 307 mil ao final do ano passado e 202 mil em 2016.

O diretor de vendas, Mário Silva, explica que a Agemed cresce em plena crise apostando num trabalho proativo na área comercial, com uma equipe de mais de mil corretores. A estratégia de expansão geográfica e comercial exigiu investimentos de cerca de R$ 4 milhões no ano passado e igual valor este ano, especialmente em tecnologia da informação, para gerir o crescente volume de dados.

Silva vê sinais de melhora no cenário para o ano que vem. “Há indicadores de que a economia vai apresentar reaquecimento, com geração de empregos, o que impacta diretamente no mercado de planos corporativos”, avalia. As parcerias reforçadas com a rede credenciada não impedem a empresa de planejar a construção de um hospital próprio em Joinville, num aporte de cerca de R$ 120 milhões, mas ainda não há previsão para o início das obras.

O aumento da rede própria é uma das estratégias do Grupo São Francisco. Sua atuação é regional no segmento de planos de saúde, abrangendo o interior do Estado de São Paulo, parte de Minas Gerais e do Paraná e ainda no Centro-Oeste. Já no segmento de planos odontológicos, tem presença nacional. Focado no segmento empresarial, o grupo pretende investir cerca de R$ 200 milhões em 2018.

Os aportes são direcionados à tecnologia – como um aplicativo que acompanha beneficiários 24 horas e outro que permite auditorias de contas médicas em tempo real -, a novas unidades e aquisições: em maio passado, o São Francisco comprou a Oral, operadora de planos odontológicos do Espírito Santo. Mas isso não quer dizer que deixará de lado a rede credenciada.

“Acreditamos num modelo híbrido”, destaca o presidente do grupo, Lício Cintra. Segundo ele, a rede própria não só ajuda a controlar despesas, como contribui na definição de protocolos e parâmetros para discussão de remuneração aos prestadores de serviço. O Grupo São Francisco, diz, já adota um modelo de pagamento, em alguns casos, baseado em resolutividade. Com previsão de fechar 2018 com 1,5 milhão de beneficiários – 30% acima do ano passado -, o São Francisco já inaugurou, este ano, 18 novas unidades.

Enquanto as operadoras focadas em planos médicos e hospitalares lidam com uma disparada dos custos, que aumentam muitas vezes a inflação oficial, a Odontoprev navega em águas mais tranquilas. “Na última década, nosso custo acompanhou a inflação, é muito mais previsível”, observa o diretor-presidente da empresa, Rodrigo Bacellar.

Dessa forma, a Odontoprev, que atua em todo o país, consegue ter preços acessíveis e alinhados aos índices gerais. Isso ajuda a explicar sua expansão, que desde que abriu o capital, em 2006, viu seu número de clientes saltar de 1,5 milhão para os atuais 6,3 milhões. Da carteira total, 4,7 milhões de beneficiários estão em contratos de grandes empregadores, 900 mil são vinculados a pequenas e médias empresas (PME) e 700 mil em planos individuais.

A recessão e o alto índice de desemprego dos últimos anos fizeram os planos corporativos perderem beneficiários, que foram compensados, de acordo com Bacellar, “acelerando a conquista de clientes PME e individuais, de maior valor agregado”. No ano passado, a receita líquida da Odontoprev foi de R$ 1,44 bilhão, contra R$ 1,46 bilhão em 2016. O lucro líquido subiu de R$ 216 milhões para R$ 245 milhões em 2017.

A tecnologia é uma aliada desse crescimento. Aplicativos foram desenvolvidos para que a maior parte das imagens de tratamentos seja enviada à Odontoprev eletronicamente e para aumentar a eficiência do trabalho dos corretores. A empresa também destina mais de 80% de seus investimentos anuais a algoritmos proprietários, que permitem à empresa certificar cerca de 20 mil tratamentos odontológicos por dia.

“Permanecemos cautelosamente otimistas. Desde o segundo semestre de 2017, a carteira de planos corporativos voltou a se expandir, e não há razão para ser diferente este ano”, afirma Bacellar. Ele ressalta que o mercado de planos exclusivamente odontológicos ainda está em construção no Brasil. De 2014 a 2017, apesar da recessão, passou de cerca de 21,2 milhões para 23,2 milhões de beneficiários. “Acreditamos que a penetração dos planos odontológicos no Brasil, de 11% da população, possa se aproximar de patamares muito mais elevados, já observados na América do Norte, onde ultrapassou 70%.”

Por Simone Goldberg

Fonte: Valor 1000 – 21/08/2018

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