Com objetivo de moderar excessos, coparticipação pode restringir acesso a atendimento médico

Número de reclamações sobre coparticipação subiu nos últimos cinco anos, segundo Idec

Criado para moderar o uso excessivo de exames e procedimentos médicos, o modelo de coparticipação em planos de saúde, em que o usuário arca com uma parcela dos custos de atendimento, traz um efeito colateral: se o percentual estabelecido pelo plano for alto, acaba funcionando como uma barreira ao atendimento.

Evitar desperdício na saúde é um objetivo louvável, mas não pode ser colocada acima da necessidade de atendimento médico da população nem cabe ao consumidor a responsabilidade por essa gestão, afirmou Ana Carolina Navarrete, pesquisadora em saúde do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor).

O número de reclamações sobre coparticipação em planos de saúde subiu nos últimos cinco anos, período em que o modelo teve aumento expressivo de usuários. Para a pesquisadora, em momento de desemprego alto, os preços mais baixos da coparticipação atraem muita gente, que depois não tem condições de arcar com os custos de exames ou procedimentos clínicos.

Por outro lado, o modelo desperta no usuário a consciência dos custos provocados pelo excesso de atendimentos, uma das causas dos altos reajustes anuais dos planos, segundo Felipe Rossi, diretor da Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde).

“O usuário precisa acordar e perceber que o sistema de saúde privada é nosso. Quanto mais a gente gasta, mais a conta vai sair cara.”

Outro elemento importante que acaba caindo no bolso do consumidor, segundo Rossi, é a exigência de que as operadoras façam o ressarcimento ao SUS de beneficiários que sejam atendidos pelo sistema público. Para ele, o ideal é que o Estado tenha cada vez menos interferência no funcionamento da saúde particular.

Além da coparticipação, outra forma de reduzir desperdícios é mudar o modelo de pagamento de hospitais e clínicas, de acordo com Walter Cintra Ferreira Junior, coordenador do MBA em gestão de saúde da Escola de Administração de Empresas da FGV.

“Hoje você tem um sistema em que, quanto mais procedimentos realizados, mais o hospital ganha. Se a remuneração passar a ser feita de acordo com os resultados clínicos conseguidos, muda a lógica do atendimento”, disse Ferreira.

Ele defendeu maior transparência em relação ao histórico de procedimentos médicos por parte de planos e hospitais com os usuários, iniciativa que poderia evitar realização ou repetição desnecessária de exames.

O debate, mediado pela jornalista Cláudia Collucci, integrou o 2º fórum Saúde Suplementar, organizado pela Folha, com patrocínio da administradora de benefícios Qualicorp e da operadora de planos de saúde Unimed, além de apoio da Anab (Associação Nacional das Administradoras de Benefícios) e da Fenasaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar).

Fonte: Folha de S. Paulo – 05/12/2018
Por Leonardo Neiva

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